PAXTON, Robert O. Introdução. In: ______. A Anatomia do fascismo.
O autor afirma que as imagens familiares que nos remetem ao fascismo são perigosas pois podem induzir-nos a erros. A imagem do ditador-todo-poderoso, por exemplo, desvia nossa atenção de todos os que estiveram apoiando essa figura central. Um modelo mais atento teria que examinar as interações entre Líder e massa, Partido e sociedade. Da mesma forma, o anti-semitismo não é característica fundamental do fascismo. Nos primeiros tempos da Itália de Mussolini, o líder tinha a seu lado industriais judeus que lhe deram apoio financeiro.
Quanto ao regime ser anticapitalista e antiburguês, podemos perceber uma grande diferença entre o discurso e a prática. As ameaças contra o capitalismo não se fizeram cumprir, enquanto que as ameaças ao socialismo foram postas violentamente em prática. Proibiram greves e investiram maciçamente nas indústrias armamentistas. Devido a essa grande variação de discurso, alguns estudiosos pensam o fascismo como forma radical de anticapitalismo, enquanto outros acham que ele veio socorrer o capitalismo.
O discurso anticapitalista era seletivo. Criticavam as finanças especulativas internacionais, porém não mudaram a hierarquia social e respeitaram os produtores nacionais. O materialismo e a indiferença com a nação foram os alvos principais da crítica anticapitalista. As denúncias antiburguesas recaíam sobre seu caráter individualista, impedidor do fortalecimento da nação. As mudanças “revolucionárias” do fascismo residiram na transformação da prática da cidadania, na reformulação das fronteiras entre público e privado, na renovação das relações entre indivíduo e coletividade, na ampliação dos poderes do executivo e no desencadeamento de emoções agressivas.
Havia um grande espaço entre o discurso de exaltação da vida rural e a modernização acelerada. Para entender essa oposição, é necessário “acompanhar a relação entre a modernidade e o fascismo ao longo de sua complexa trajetória histórica. Os primeiros movimentos fascistas exploraram os protestos das vítimas da industrialização rápida e da globalização” (p. 31), usando técnicas modernas de propaganda. Inúmeros intelectuais “modernistas” achavam interessante a combinação da aparência hightech e a crítica às sociedades modernas. O que realmente procuravam era a uma modernidade em que não houvesse tensões, dependente portanto da integração e controle fascistas. Para o autor, a modernidade alternativa fascista também foi responsável pela “limpeza étnica” nazista, baseada na eugenia e na racionalidade que parecia rejeitar a moralidade.
As imagens pecam por enfocar momentos grandiosos e omitir o cotidiano, a cumplicidade das pessoas comuns e das elites tradicionais que permitiram seu funcionamento. Talvez ser complacente com o regime significasse ter que fechar os olhos para alguns excessos aparentemente inofensivos. Os episódios da Kristallnacht, por exemplo, geraram grande indignação por parte de muitos alemães, mas foi passageira. É a partir do entendimento de como o sistema judicial, as autoridades religiosas e os civis consentiram em deixar uma minoria militante praticar tantos atos brutais é que saberemos o quê foi o regime fascista na Alemanha.
A maioria das pessoas pensa que o fascismo é uma ideologia. Os líderes mesmo afirmavam isso (Mussolini e seu “credo fascista”, Hitler e sua “visão de mundo”). No entanto, o fascismo não se baseia em nenhum sistema filosófico de algum pensador sistemático, como nos “ismos”, “e sim no sentimento popular sobre as raças superiores, as injustiças de suas condições atuais e seu direito a predominar sobre os povos inferiores” (p. 38). Não dependia da verdade, mas da união mística do líder com o seu povo eleito, do desejo deste de deixar-se levar pelos interesses do grupo. Não havia necessidade de um programa imutável ou de uma doutrina. Interessava era que os fiéis amassem, e não que concordassem intelectualmente com o regime. No entanto, não se deve deixar de lado suas raízes ideológicas. Os intelectuais dos primeiros tempos possibilitaram imaginar o fascismo, pondo em marcha a idéia de que não era somente a esquerda que podia ajudar os necessitados.
Paxton afirma, por fim, que as definições são limitantes, e é por essa razão que deixa de lado, pelo menos inicialmente, o objetivo de definir. Sua estratégia é observar a trajetória como uma série de processos. Em face dos diferentes fascismos que ocorreram, em razão dos particularismos culturais de cada nação, e da dificuldade de defini-los, apresentam-se três reações ao termo fascismo. Alguns acadêmicos negam seu significado, defendendo cada um como fenômeno separado. Outros aceitam sua variedade, compilando-a em suas múltiplas formas. O terceiro enfoque seria o de estabelecer um “tipo ideal”. Segundo o autor, os três tipos são inadequados, por hora, para definir a nova política que emergiu no início do século XX. Assim, propõe estudar o fascismo em um ciclo de cinco estágios (criação dos movimentos, enraizamento no sistema político, tomada do poder, exercício do poder e escolha pela radicalização ou pela entropia), que permitirão examinar os movimentos e regimes em seus diferentes estágios de evolução.
segunda-feira, 31 de março de 2008
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