MILMAN, Luis. “Negacionismo: gênese e desenvolvimento do genocídio conceitual”. p. 115-154.
Para Milman, as discussões em torno do negacionismo revelam o irracionalismo das crenças cotidianas e comprovam que o anti-semitismo ainda pode ser utilizado por um projeto político. Diante dessa versão fictícia da História, é obrigação dos cientistas refutar os negacionistas em suas tentativas de descriminalizar o regime nazista, banalizar o Holocausto e reabilitar o nazifascismo como alternativa política. Os dois pressupostos da argumentação dos negadores se baseiam num complô judaico (recorrendo às doutrinas ocultistas da história) e em técnicas de “malabarismos” documentais. Os principais pensadores do movimento hoje são:
Bardèche - foi um grande articulador do reagrupamento dos militantes e teóricos de extrema-direita após a Segunda Guerra Mundial;
Rassinier - autor do primeiro livro negacionista e defensor da idéia de que houve um complô judeu internacional;
Faurisson - amplificou a obra de Rassinier, e teve em sua obra “O Boato de Auschwitz” seu maior destaque, negando o extermínio e as câmaras de gás que existiram em tal campo;
David Irving - deixou clara sua posição negacionista ao escrever a introdução do Relatório Leuchter, em 1988;
Roger Garaudy – em seu livro “Os Mitos Fundadores da Política Israelense” defende que o Holocausto foi um elemento fundador do Estado de Israel. Sofreu uma condenação de um ano de prisão além de uma multa de 60 mil francos pela publicação de seu livro.
Pode-se observar que as ideologias e doutrinas negacionistas, apesar de muitas vezes contraditórias entre si, se convergem quanto ao seu propósito: atualizar a visão da perversidade judaica. Nesse contexto, o livro “A Questão Judaica”, de Marx, contribuiu para a fundação da doutrina de paranóia anti-semita, ainda que o autor mesmo fosse judeu. Tais elaborações se tornam difíceis de refutar dado que os que dão credibilidade a esse projeto são imunes à crítica, fechados dentro desse imaginário que se pretende racional. Para concluir, o autor em questão aponta que a tarefa de confrontar os negadores com argumentos precisos e claros é uma tarefa para toda a humanidade, principalmente para as novas gerações.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
sábado, 21 de junho de 2008
Resumo Texto nº10
VILMAR-KRAUSE, Dietfrid. A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política.
Os crimes cometidos pelos nazistas nos impõem compromissos permanentes, e é por isso que devemos abordar o tema da negação dos assassinatos em massa cometidos pelo nacional-socialismo. À época, muitos não acreditaram, e não queriam acreditar, que alguém poderia ser capaz de fazer algo assim. Da mesma forma, hoje as declarações dos negacionistas suscitam dúvida e devem ser contra-argumentadas claramente.
Correntes de opinião poderosas forma criadas por aqueles que negam a existência de Auschwitz. Seus adeptos pretendem fazer uma revisão da história (revisionismo). Inicialmente relativizaram as declarações das testemunhas, mas depois começaram a negar os testemunhos alegando que os relatos eram exagerados. Nas décadas seguintes, os assassinatos em massa passaram a ser negados, centrando-se na quantidade de pessoas assassinadas, nas técnicas, nos documentos e nos locais dos assassinatos, e na existência das câmaras de gás. Ademais, é questionada a culpa dos alemães pela guerra.
Membros do Partido Nacional Democrático da Alemanha (NPD) ocuparam-se inúmeras vezes da negação dos assassinatos. Um dos principais argumentos era o Relatório Leuchter, documento questionável com bases supostamente empíricas que dizia que não teria havido câmaras de gás em Auschwitz. O impacto causado pelos casos fez com que vários negadores fossem presos por anos.
A argumentação dos negadores é baseada em pareceres técnicos e métodos que não correspondem aos princípios científicos e na descontextualização de documentos de fatos históricos. Os trabalhos revisionistas possuem muitos detalhismos e se centram, quanto ao conteúdo, no campo de concentração de Auschwitz e no motivo anti-semita, marcados de ódio e desprezo.
Ainda que existam vários argumentos que comprovem que houve a matança de judeus e outros indesejáveis na concepção dos nazistas, os defensores da negação, dado o nível de isolamento que chegaram, não irão discutir. Só cabe a nós argumentar contra eles.
Os crimes cometidos pelos nazistas nos impõem compromissos permanentes, e é por isso que devemos abordar o tema da negação dos assassinatos em massa cometidos pelo nacional-socialismo. À época, muitos não acreditaram, e não queriam acreditar, que alguém poderia ser capaz de fazer algo assim. Da mesma forma, hoje as declarações dos negacionistas suscitam dúvida e devem ser contra-argumentadas claramente.
Correntes de opinião poderosas forma criadas por aqueles que negam a existência de Auschwitz. Seus adeptos pretendem fazer uma revisão da história (revisionismo). Inicialmente relativizaram as declarações das testemunhas, mas depois começaram a negar os testemunhos alegando que os relatos eram exagerados. Nas décadas seguintes, os assassinatos em massa passaram a ser negados, centrando-se na quantidade de pessoas assassinadas, nas técnicas, nos documentos e nos locais dos assassinatos, e na existência das câmaras de gás. Ademais, é questionada a culpa dos alemães pela guerra.
Membros do Partido Nacional Democrático da Alemanha (NPD) ocuparam-se inúmeras vezes da negação dos assassinatos. Um dos principais argumentos era o Relatório Leuchter, documento questionável com bases supostamente empíricas que dizia que não teria havido câmaras de gás em Auschwitz. O impacto causado pelos casos fez com que vários negadores fossem presos por anos.
A argumentação dos negadores é baseada em pareceres técnicos e métodos que não correspondem aos princípios científicos e na descontextualização de documentos de fatos históricos. Os trabalhos revisionistas possuem muitos detalhismos e se centram, quanto ao conteúdo, no campo de concentração de Auschwitz e no motivo anti-semita, marcados de ódio e desprezo.
Ainda que existam vários argumentos que comprovem que houve a matança de judeus e outros indesejáveis na concepção dos nazistas, os defensores da negação, dado o nível de isolamento que chegaram, não irão discutir. Só cabe a nós argumentar contra eles.
Resumo Texto nº8
CLARKE-GOODRICK, Nicholas. Sol Negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. Conclusão (p. 397-401).
Os cultos arianos e o nazismo esotérico têm como base o conceito de raça. Os judeus representam para o neonazismo americano o fermento da sociedade liberal, enquanto que na década de 1950, o “inimigo” era a oposição aos direitos civis para os negros. Já para os grupos neonazistas britânicos, a crescente imigração de pessoas de cor é seu bode expiatório. A reintrodução da categoria de raça como fator de identificação foi permitida por vários motivos. Nos EUA, as políticas adotadas pelo governo para lidar com a emergência do poder negro frente ao domínio racial branco, como por exemplo, programas de oportunidades iguais, foi o grande estopim.
Os grupos arianos e neonazistas necessitam de mitologias para negar o domínio branco sobre os demais. A adoção da cronologia hindu por figuras como Julius Evola, Savitri Devi e Miguel Serrano, a qual traz a promessa de uma era dourada após o grande declínio dos homens, faz parte desse movimento. É também nesse contexto que se insere a filosofia mítica que afirma que as raças européias estão incapacitas pelas influências judaicas de criar um poderoso Império mundial.
As forças de globalização e de imigração, o multiculturalismo e a erosão do conceito de soberania nacional desempenham forte papel no ideário mítico dos neonazistas. A partir da década de 1980, a extrema-direita renova seu vigor nos EUA e na Grã-Bretanha, que pode ser visto através das gangues racistas, da white music e da criação de religiões populares de identidade branca. Esses fenômenos podem ser considerados sintomas da desestabilização das democracias ocidentais no caminho de um novo movimento de extrema-direita melhor consolidado e preparado.
Os cultos arianos e o nazismo esotérico têm como base o conceito de raça. Os judeus representam para o neonazismo americano o fermento da sociedade liberal, enquanto que na década de 1950, o “inimigo” era a oposição aos direitos civis para os negros. Já para os grupos neonazistas britânicos, a crescente imigração de pessoas de cor é seu bode expiatório. A reintrodução da categoria de raça como fator de identificação foi permitida por vários motivos. Nos EUA, as políticas adotadas pelo governo para lidar com a emergência do poder negro frente ao domínio racial branco, como por exemplo, programas de oportunidades iguais, foi o grande estopim.
Os grupos arianos e neonazistas necessitam de mitologias para negar o domínio branco sobre os demais. A adoção da cronologia hindu por figuras como Julius Evola, Savitri Devi e Miguel Serrano, a qual traz a promessa de uma era dourada após o grande declínio dos homens, faz parte desse movimento. É também nesse contexto que se insere a filosofia mítica que afirma que as raças européias estão incapacitas pelas influências judaicas de criar um poderoso Império mundial.
As forças de globalização e de imigração, o multiculturalismo e a erosão do conceito de soberania nacional desempenham forte papel no ideário mítico dos neonazistas. A partir da década de 1980, a extrema-direita renova seu vigor nos EUA e na Grã-Bretanha, que pode ser visto através das gangues racistas, da white music e da criação de religiões populares de identidade branca. Esses fenômenos podem ser considerados sintomas da desestabilização das democracias ocidentais no caminho de um novo movimento de extrema-direita melhor consolidado e preparado.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Resenha Os afogados e os sobreviventes

LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes: os delitos, os castigos, as penas, as impunidades. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1990.
Nascido em Turim, na Itália, em 1919, Primo Levi formou-se em Química quando ainda era permitido aos judeus freqüentar as universidades. Em 1944, foi deportado para Auschwitz, só sendo libertado de lá no final da guerra. Morreu no ano de 1987, ao sofrer um acidente em sua própria casa, fato que criou grande polêmica em torno de sua morte, que alguns pensam ter sido suicídio.
Autor de É isto um homem (1947), primeiro livro a relatar o cotidiano do mundo concentracionário de Auschwitz, Levi faz nesse livro um balanço de suas memórias, particularmente perceptível no último capítulo, alertando principalmente as novas gerações do perigo que a humanidade ainda corre. Ao longo da obra ainda desconstrói várias visões comuns que se tem sobre os Lager, os campos de concentração e extermínio, que, no entanto, não ocorriam.
Esse balanço embebido de memória se justifica pelo fato de que “Em nenhum outro tempo e lugar se assistiu a um fenômeno tão imprevisto e tão complexo: jamais tantas vidas humanas foram eliminadas num tempo tão breve, e com uma tão lúcida combinação de engenho tecnológico, de fanatismo e de crueldade” (p. 7).
Ainda que a memória seja a matéria prime de suas reflexões, Levi aponta que ela pode falhar. A fabricação de uma realidade conveniente tanto por parte dos torturadores quanto dos sobreviventes é um fenômeno no qual a distinção entre verdadeiro e falso vai se perdendo. No primeiro caso, o processo leva à diminuição da culpa; já no caso dos inocentes, muitas vezes à memória pessoal vai se adicionando fragmentos de histórias de outros que também sobreviveram; quanto aos parentes, esse fenômeno se traduz na invenção de uma verdade consolatória.
Para o autor, o homem é compelido a simplificar tudo entre dois pólos diametralmente opostos: “nós” e “eles”, o bem e o mal. Mas logo ao se chegar ao Lager, vê-se que esse tipo de bipartição não existe apresentada nessa forma. O choque e a surpresa advêm da existência do que o autor descreve como uma zona cinzenta, comportada por pessoas que transitam entre a fronteira inimigo e amigo.
A existência dessas figuras fantasmas, os prisioneiros privilegiados, os pridurki, e os Kapos, prisioneiros chefes que atuavam em diversas áreas, eram sistemas de reproduzir a hierarquia do regime dentro do cativeiro. Em outras palavras, de trazer para a esfera dos inocentes um pouco da culpa dos “outros”; o trabalho sujo era delegado aos prisioneiros para sua própria degradação moral. E como estes iriam recusar, se aquilo representava a sobrevivência nem que fosse por algumas semanas a mais?
Primo critica o estereótipo do fim da guerra veiculado em filmes e romances, nos quais se retrata a felicidade de todos pelo fim do sofrimento, o reencontro com os parentes e amigos. Contudo, e ao contrário do que se poderia imaginar, esse cenário de libertação era marcado pela emergência de sentimentos como a angústia e a vergonha.
Angústia pela família perdida, pelo cansaço que parecia haver consumido toda a vida e alegria. Mas também vergonha pelo sentimento de culpa; mesmo que no plano racional não seja justificável, no plano moral as coisas mudam de proporção. O mal-estar de não ter feito nada, de não ter resistido, de ter esquecido a solidariedade humana, por não ter socorrido seus iguais pode seguir o indivíduo até a morte.
Na concepção do autor, o termo “incomunicabilidade” não existe. Sempre se pode, e se deve comunicar. No universo em questão, “Saber ou não o alemão era um divisor de águas” (p. 53) e, sendo assim, os que não entendiam a língua se viam numa situação pior dos que a entendiam. A língua alemã ia pouco a pouco se transformando em golpes e tapas, atos próprios para se lidar com os animais.
O homem intelectual, no sentido de homem culto das ciências, e não só da filosofia e da política, estava numa situação pior que o inculto. Faltava-lhe força física e experiência nos trabalhos manuais, os mais requisitados nos campos. No caso de Primo, o ofício de químico o ajudou a sobreviver posto que seus serviços foram colocados à disposição de uma indústria. Da mesma forma que um trabalho especializado, a cultura, nesse contexto, podia servir de ligação com o passado nas horas mais devastadoras. O universo dos sobreviventes é amplamente marcado por algumas perguntas, normalmente feitas por jovens, quase acusatórias algumas vezes, que giram em torno de dois temas: a fuga e a rebelião. Por que não fugiram? Por que não se rebelaram? Por que não fugiram antes da captura? As respostas a tais indagações são várias, mas nem sempre entendidas, pois partem de visões de mundo diferentes, destinadas a ter seu grau de julgamento aumentado de acordo com o tempo.
No oitavo capítulo, Cartas de alemães, faz um balanço das cartas que recebeu após a publicação da tradução em alemão de seu livro É isto um homem. As quarenta cartas que apresenta tentam, em sua maioria, responder a questão: Seria possível compreender os alemães? As respostas demonstram certa vergonha por parte dos alemães em relembrar seu passado recente, o qual muitos nem viveram nem viram, mas ainda assim sentem o peso da História cair sobre si.
A experiência dos sobreviventes é decerto estranha às novas gerações, e o será mais e mais à medida que os anos se passam, em parte porque os problemas de hoje são diferentes, a configuração do mundo mudou. Mas os sinais precursores continuam a existir: violência, intolerância, fanatismos religiosos e políticos, conflitos raciais.
É essencial lembrarmos que os culpados não eram pessoas desequilibradas mentais, mas pessoas que receberam uma educação ruim, uma espécie de lavagem moral. Desse modo, Primo Levi atenta para que a responsabilidade recai sobre todos os alemães, que por preguiça mental ou outros motivos, aceitaram as belas palavras de Hitler e de seu Partido. O alerta, na verdade, se estende a todos os indivíduos. Suas memórias estão aí para relembrar que o Holocausto realmente existiu, e que é passível de acontecer de novo.
Resenha O Triunfo da Vontade

O TRIUNFO DA VONTADE. Direção: Leni Riefenstahl, 1935.
A diretora do filme, Leni Riefenstahl (1902-2003), era grande fã das artes e da dança quando jovem. Trabalhou como atriz, diretora e produtora , ficando reconhecida pelo sucesso com filmes encomendados pelo Partido, como Olympia, fruto de suas filmagens durante as Olimpíadas de 1936. O prestígio como diretora se traduziu na medalha de ouro que ganhou na Feira de Paris, em 1937
Sua carreira como cineasta foi destruída com o fim da guerra, quando foi acusada de colaborar com o regime, motivo pelo qual suas obras passaram a ser encaradas como mera propaganda. No entanto, Leni não abandonou as artes. Tornou-se fotógrafa e conquistou grande prestígio com trabalhos realizados na África.
O objetivo do documentário era registrar o 6º Congresso do Partido Nacional-Socialista, realizado a 5 de setembro de 1934, em Nuremberg. O congresso anual foi dedicado à Field Marshall, primeiro soldado alemão morto na 1ª Guerra Mundial, e a todos os camaradas que também se foram lutando pelo seu país.
Produzido por ordem do Führer, o documentário mostra os discursos de grandes filiados do Partido, entre eles Goebbels e Rosenberg. Hitler é sinônimo de paz e vitória, logo se diz num dos primeiros pronunciamentos, e a “verdade é o pilar em que o poder da imprensa se apóia”, sendo esta responsável por relatar a realidade da Alemanha.
Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda do Reich, ajudou a idealizar a imagem que deveria ser passada do regime para o povo alemão, consolidando a doutrina nazista. Também controlava e censurava o conteúdo que era divulgado em jornais, filmes, livros e outros meios de comunicação.
Foi ele o célebre autor da frase “Se você contra uma mentira grande o bastante e continua repetindo-a, as pessoas vão começar a acreditar nela. A mentira só poderá ser mantida enquanto o Estado puder proteger as pessoas das conseqüências políticas, econômicas e/ou militares da mentira” . Isso é justamente o que deveria ser o objetivo da propaganda nazista perante seu povo.
As principais cenas escolhidas por Leni mostram a ovação das pessoas diante da passagem de Hitler, a rotina dos valorosos soldados da Juventude Hitlerista, paradas militares, discursos, encontros do Führer com camponeses e suas tradições. Enfim, o foco é exibir as nobres ações do líder e seus “ajudantes” que iriam transformar o país.
O documentário está povoado de simbolismos . Além de Nuremberg, a velha cidade imperial, ser um local histórico para Hitler, o título faz menção a uma idéia de Nietzsche, o qual pensava que se um ser fosse possuído pela vontade, seria capaz de se tornar inalcançável e inquebrável. Em suma, o título foi escolhido propositalmente para designar o momento em que Hitler se sentia em seu ápice, praticamente invencível.
Os méritos estéticos de Riefenstahl não ficam para trás de sua importância histórica. Leni usou várias técnicas cinematográficas para destacar a figura de Hitler quando este discursava ou passava num desfile para a população.
Sendo a película de 1935, ainda não se pode ver o que seria veiculado durante a massiva campanha contra os judeus, e o que era considerado oportuno mostrar aos alemães, o que decerto não seria muito. Mas é consistente no que diz respeito aos atos do Partido na época. Serve-nos de testemunho ao pensamento que se queria veicular naquele momento de sonhos grandiosos para a nova Alemanha. Faz sentir como se fôssemos um alemão médio, vendo as proezas de Hitler no início de seus tempos.
Resumo Texto nº9
VIZENTINI, Paulo F. “O ressurgimento da extrema-direita e do neonazismo: a dimensão histórica e conceitual”. In.: Neonazismo, negacionismo e extremismo político. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 2000. p. 17-46.
O autor busca abordar a dimensão histórica dos problemas internacionais relacionados ao ressurgimento do neonazismo, da extrema-direita, do extremismo político e das gangs, fenômenos que considera associados, porém diferentes. Além disso, procura diferenciar a existência de um partido político, por um lado, e um eleitorado, por outro.
Segundo Vizentini, o grande perigo que é representado pela explosão desses movimentos na Europa em finais dos anos 1980 se traduz no fato de que a História mostrou que isso é só parte de um fenômeno mais complexo.
O nazifascismo é um movimento ligado à crise liberal e à noção de progresso que vigorava nos anos 1920. “Mas, uma vez que o progresso, o crescimento industrial e a sociedade moderna se afirmaram, eles permaneceram como filosofias marginais e exóticas” (p. 2). Outro fator importante para a ascensão do fascismo foi a conivência das democracias ocidentais, pois inicialmente pensavam que esses movimentos funcionariam como um freio ao avanço socialista.
O fascismo, na verdade, não foi destruído completamente em 1945, tanto que países como Espanha, Portugal e Grécia continuaram com regimes de perfil semelhante no poder. Ademais, com a emergência da Guerra Fria, o espectro político dos países do bloco ocidental teve que ser reconstruído, e para tanto era necessária a criação de formações de centro-direita que vinham da oposição ao fascismo.
Deveriam também reconstruir a economia dos países desse bloco. Nesse momento, o Plano Marshall desenvolveu papel decisivo no tom dos julgamentos, até que os que apoiaram financeiramente o regime acabassem escapando de uma penalização mais dura.
Muitos desses colaboracionistas se esconderam na bandeira da solidariedade anticomunista. Personalidades nazistas foram úteis pelo seu conhecimento técnico na Guerra Fria. O fascismo sobreviveu fragmentado por anos, desempenhando algumas tarefas complementares, como o ocorrido com a organização paramilitar Gladio.
Ao decorrer dos ditos “anos dourados”, de grande prosperidade, a sociedade de consumo experimentou uma acomodação política. Os partidos de extrema-direita da época viviam num estado semi-vegetativo, compostos em sua maioria por jovens entre 16 e 24 anos que não haviam vivido a desnazificação.
O problema vai emergir quando, nos anos 70, com a crise do petróleo. Revoluções socialistas eclodem no Terceiro Mundo, preocupando a classe média européia. Esse fator foi agravado pela estagnação industrial e a regressão demográfica que a Europa estava enfrentando, que causou por sua vez a “importação” mão-de-obra mais barata num movimento Sul-Norte.
Os fatores apontados acima em conjunto vão gerar um desencanto com o mundo, caldo cultural ótimo para o recrutamento e reorganização dos grupos fascistas. Tais tensões, já nos anos 80, vão crescer em tal medida que encontrarão como escape a xenofobia e o racismo, calcados na figura do estrangeiro “causador de todos os males”.
O ressurgimento da extrema-direita é baseado num “hiato de pânico e desesperança” (p. 11) que advém do colapso da ordem econômica e social. O medo, a ignorância e o desencanto devem ser combatidos a fim de se evitar uma nova barbárie de alcance mundial.
O autor busca abordar a dimensão histórica dos problemas internacionais relacionados ao ressurgimento do neonazismo, da extrema-direita, do extremismo político e das gangs, fenômenos que considera associados, porém diferentes. Além disso, procura diferenciar a existência de um partido político, por um lado, e um eleitorado, por outro.
Segundo Vizentini, o grande perigo que é representado pela explosão desses movimentos na Europa em finais dos anos 1980 se traduz no fato de que a História mostrou que isso é só parte de um fenômeno mais complexo.
O nazifascismo é um movimento ligado à crise liberal e à noção de progresso que vigorava nos anos 1920. “Mas, uma vez que o progresso, o crescimento industrial e a sociedade moderna se afirmaram, eles permaneceram como filosofias marginais e exóticas” (p. 2). Outro fator importante para a ascensão do fascismo foi a conivência das democracias ocidentais, pois inicialmente pensavam que esses movimentos funcionariam como um freio ao avanço socialista.
O fascismo, na verdade, não foi destruído completamente em 1945, tanto que países como Espanha, Portugal e Grécia continuaram com regimes de perfil semelhante no poder. Ademais, com a emergência da Guerra Fria, o espectro político dos países do bloco ocidental teve que ser reconstruído, e para tanto era necessária a criação de formações de centro-direita que vinham da oposição ao fascismo.
Deveriam também reconstruir a economia dos países desse bloco. Nesse momento, o Plano Marshall desenvolveu papel decisivo no tom dos julgamentos, até que os que apoiaram financeiramente o regime acabassem escapando de uma penalização mais dura.
Muitos desses colaboracionistas se esconderam na bandeira da solidariedade anticomunista. Personalidades nazistas foram úteis pelo seu conhecimento técnico na Guerra Fria. O fascismo sobreviveu fragmentado por anos, desempenhando algumas tarefas complementares, como o ocorrido com a organização paramilitar Gladio.
Ao decorrer dos ditos “anos dourados”, de grande prosperidade, a sociedade de consumo experimentou uma acomodação política. Os partidos de extrema-direita da época viviam num estado semi-vegetativo, compostos em sua maioria por jovens entre 16 e 24 anos que não haviam vivido a desnazificação.
O problema vai emergir quando, nos anos 70, com a crise do petróleo. Revoluções socialistas eclodem no Terceiro Mundo, preocupando a classe média européia. Esse fator foi agravado pela estagnação industrial e a regressão demográfica que a Europa estava enfrentando, que causou por sua vez a “importação” mão-de-obra mais barata num movimento Sul-Norte.
Os fatores apontados acima em conjunto vão gerar um desencanto com o mundo, caldo cultural ótimo para o recrutamento e reorganização dos grupos fascistas. Tais tensões, já nos anos 80, vão crescer em tal medida que encontrarão como escape a xenofobia e o racismo, calcados na figura do estrangeiro “causador de todos os males”.
O ressurgimento da extrema-direita é baseado num “hiato de pânico e desesperança” (p. 11) que advém do colapso da ordem econômica e social. O medo, a ignorância e o desencanto devem ser combatidos a fim de se evitar uma nova barbárie de alcance mundial.
domingo, 1 de junho de 2008
Resenha Arquitetura da Destruição

ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO. Direção: Peter Cohen, 1992.
Quando jovem, Adolf Hitler gostaria de ter entrar para a Academia de Artes de Viena. Autodenominava-se um artista, e não um político, e imaginava que, assim que a guerra acabasse, se voltaria à carreira de artista. Seu sonho, na verdade, era ser arquiteto, coisa que de alguma forma logrou conquistar.
Esse é exatamente o ponto central do filme. Grande admirador de Richard Wagner (1813-1883), compositor alemão que serviu de inspiração para alguns dos ideais nazistas de “pureza racial”, Hitler partilhava deste a idéia de que a arte serviria como base para uma nova e melhor civilização. Criou os uniformes e bandeiras nazistas, além de ter projetado alguns edifícios da nova Alemanha.
Nesse sentido, vida e arte estavam entrelaçadas no novo Estado, sendo a última considerada uma representação da raça. Com a fundação da Sociedade Nacional-Socialista de Cultura Alemã, que em 1938 passou a ser chamada de Defesa da Cultura Alemã, quadros de inspiração clássica eram escolhidos para representar o ideal estético de beleza e superioridade racial, frente às “obras degeneradas” dos bolcheviques.
Albert Speer foi o encarregado por Hitler da estruturação da nova Alemanha, cujo pilar era o erguimento de novas cidades a partir de uma arquitetura que acompanhasse a grandeza da nação. Dessa forma, essas construções ostentavam proporções imensas, abrangendo mais de quarenta cidades, e eram fortemente inspiradas na Antigüidade, principalmente em Atenas, Esparta e a República Romana.
A visita a Paris que o Führer fez logo após a ocupação alemã em 1940 o ajudou a idealizar a nova Berlim, a nova capital do mundo que deixaria a capital francesa à sombra de sua beleza e grandiosidade. O Arco do Triunfo alemão seria duas vezes maior que o francês, o Centro Cultural dezessete vezes maior que a Catedral de São Pedro, e o Congresso, por sua vez, foi inspirado no Coliseu.
O objetivo da guerra também era inspirado na Antigüidade: não bastava somente obter a vitória, mas também se fazia necessário aniquilar o povo e a cidade inimiga. Os prisioneiros de guerra, da mesma forma que os antigos bárbaros, eram recrutados para construir as novas cidades e trabalhar nas indústrias alemãs.
Hereditariedade, teoria racial, eugenia, limpeza racial e um vago princípio de beleza se mesclam num conceito de saúde a ser alcançado através da ciência. Essa forma de encarar o mundo, a qual pode ser ilustrada pelo fato de que 45% dos médicos alemães pertenciam ao Partido Nacional-Socialista, estava a um pequeno passo da política de extermínio levada a cabo pelo regime.
A visão de mundo nazista, com a ajuda da propaganda de Goebbels, levava a crer que era essencial a exclusão de judeus e outras categorias que fossem consideradas culpadas pela decadência alemã. A sociedade em geral era levada a acreditar que eram piolhos, bactérias, insetos, vermes e, portanto, deveriam ser exterminados.
A partir de agosto de 1941, a solução final dos judeus começou a movimentar-se com toda força total. Câmaras de gás como as usadas para matar os doentes mentais no Projeto T4 foram instaladas em Treblinka e Sobibor. No entanto, Auschwitz foi o primeiro lugar escolhido para se testar o verdadeiro extermínio em massa.
Os testes conduzidos com o Zyklon B, inseticida à base de cianeto usado para exterminar pragas, fizeram-no passar a ser utilizado para pessoas. Unia numa só fórmula as idéias de bem-estar, conservação e limpeza num conceito mais amplo de saúde. O genocídio, então, passou a ser encarado como uma medida de higiene imperiosa.
Quando alguns artistas alemães são contratados com o objetivo de retratar a frente de guerra com os russos, e acabam capturando em seus pincéis a derrota alemã, a guerra inútil contra os aliados se evidencia. No entanto, quanto maior era a evidência de que essa guerra era improdutiva, maior era a perseguição e o extermínio de judeus.
O que aconteceu na Alemanha nazista talvez tenha sido somente uma possível visão do futuro. “Da derrota, nova semente brotará”; Hitler conseguiu afinal concretizar seu sonho. Sua morte inspirou os que acreditavam em seus ideais e ainda inspirará as gerações a vir. O destino, com efeito, é a forma mais representativa da arte.
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