domingo, 1 de junho de 2008

Resenha Arquitetura da Destruição



ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO. Direção: Peter Cohen, 1992.

Quando jovem, Adolf Hitler gostaria de ter entrar para a Academia de Artes de Viena. Autodenominava-se um artista, e não um político, e imaginava que, assim que a guerra acabasse, se voltaria à carreira de artista. Seu sonho, na verdade, era ser arquiteto, coisa que de alguma forma logrou conquistar.
Esse é exatamente o ponto central do filme. Grande admirador de Richard Wagner (1813-1883), compositor alemão que serviu de inspiração para alguns dos ideais nazistas de “pureza racial”, Hitler partilhava deste a idéia de que a arte serviria como base para uma nova e melhor civilização. Criou os uniformes e bandeiras nazistas, além de ter projetado alguns edifícios da nova Alemanha.
Nesse sentido, vida e arte estavam entrelaçadas no novo Estado, sendo a última considerada uma representação da raça. Com a fundação da Sociedade Nacional-Socialista de Cultura Alemã, que em 1938 passou a ser chamada de Defesa da Cultura Alemã, quadros de inspiração clássica eram escolhidos para representar o ideal estético de beleza e superioridade racial, frente às “obras degeneradas” dos bolcheviques.
Albert Speer foi o encarregado por Hitler da estruturação da nova Alemanha, cujo pilar era o erguimento de novas cidades a partir de uma arquitetura que acompanhasse a grandeza da nação. Dessa forma, essas construções ostentavam proporções imensas, abrangendo mais de quarenta cidades, e eram fortemente inspiradas na Antigüidade, principalmente em Atenas, Esparta e a República Romana.
A visita a Paris que o Führer fez logo após a ocupação alemã em 1940 o ajudou a idealizar a nova Berlim, a nova capital do mundo que deixaria a capital francesa à sombra de sua beleza e grandiosidade. O Arco do Triunfo alemão seria duas vezes maior que o francês, o Centro Cultural dezessete vezes maior que a Catedral de São Pedro, e o Congresso, por sua vez, foi inspirado no Coliseu.
O objetivo da guerra também era inspirado na Antigüidade: não bastava somente obter a vitória, mas também se fazia necessário aniquilar o povo e a cidade inimiga. Os prisioneiros de guerra, da mesma forma que os antigos bárbaros, eram recrutados para construir as novas cidades e trabalhar nas indústrias alemãs.
Hereditariedade, teoria racial, eugenia, limpeza racial e um vago princípio de beleza se mesclam num conceito de saúde a ser alcançado através da ciência. Essa forma de encarar o mundo, a qual pode ser ilustrada pelo fato de que 45% dos médicos alemães pertenciam ao Partido Nacional-Socialista, estava a um pequeno passo da política de extermínio levada a cabo pelo regime.
A visão de mundo nazista, com a ajuda da propaganda de Goebbels, levava a crer que era essencial a exclusão de judeus e outras categorias que fossem consideradas culpadas pela decadência alemã. A sociedade em geral era levada a acreditar que eram piolhos, bactérias, insetos, vermes e, portanto, deveriam ser exterminados.
A partir de agosto de 1941, a solução final dos judeus começou a movimentar-se com toda força total. Câmaras de gás como as usadas para matar os doentes mentais no Projeto T4 foram instaladas em Treblinka e Sobibor. No entanto, Auschwitz foi o primeiro lugar escolhido para se testar o verdadeiro extermínio em massa.
Os testes conduzidos com o Zyklon B, inseticida à base de cianeto usado para exterminar pragas, fizeram-no passar a ser utilizado para pessoas. Unia numa só fórmula as idéias de bem-estar, conservação e limpeza num conceito mais amplo de saúde. O genocídio, então, passou a ser encarado como uma medida de higiene imperiosa.
Quando alguns artistas alemães são contratados com o objetivo de retratar a frente de guerra com os russos, e acabam capturando em seus pincéis a derrota alemã, a guerra inútil contra os aliados se evidencia. No entanto, quanto maior era a evidência de que essa guerra era improdutiva, maior era a perseguição e o extermínio de judeus.
O que aconteceu na Alemanha nazista talvez tenha sido somente uma possível visão do futuro. “Da derrota, nova semente brotará”; Hitler conseguiu afinal concretizar seu sonho. Sua morte inspirou os que acreditavam em seus ideais e ainda inspirará as gerações a vir. O destino, com efeito, é a forma mais representativa da arte.

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