VIZENTINI, Paulo F. “O ressurgimento da extrema-direita e do neonazismo: a dimensão histórica e conceitual”. In.: Neonazismo, negacionismo e extremismo político. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 2000. p. 17-46.
O autor busca abordar a dimensão histórica dos problemas internacionais relacionados ao ressurgimento do neonazismo, da extrema-direita, do extremismo político e das gangs, fenômenos que considera associados, porém diferentes. Além disso, procura diferenciar a existência de um partido político, por um lado, e um eleitorado, por outro.
Segundo Vizentini, o grande perigo que é representado pela explosão desses movimentos na Europa em finais dos anos 1980 se traduz no fato de que a História mostrou que isso é só parte de um fenômeno mais complexo.
O nazifascismo é um movimento ligado à crise liberal e à noção de progresso que vigorava nos anos 1920. “Mas, uma vez que o progresso, o crescimento industrial e a sociedade moderna se afirmaram, eles permaneceram como filosofias marginais e exóticas” (p. 2). Outro fator importante para a ascensão do fascismo foi a conivência das democracias ocidentais, pois inicialmente pensavam que esses movimentos funcionariam como um freio ao avanço socialista.
O fascismo, na verdade, não foi destruído completamente em 1945, tanto que países como Espanha, Portugal e Grécia continuaram com regimes de perfil semelhante no poder. Ademais, com a emergência da Guerra Fria, o espectro político dos países do bloco ocidental teve que ser reconstruído, e para tanto era necessária a criação de formações de centro-direita que vinham da oposição ao fascismo.
Deveriam também reconstruir a economia dos países desse bloco. Nesse momento, o Plano Marshall desenvolveu papel decisivo no tom dos julgamentos, até que os que apoiaram financeiramente o regime acabassem escapando de uma penalização mais dura.
Muitos desses colaboracionistas se esconderam na bandeira da solidariedade anticomunista. Personalidades nazistas foram úteis pelo seu conhecimento técnico na Guerra Fria. O fascismo sobreviveu fragmentado por anos, desempenhando algumas tarefas complementares, como o ocorrido com a organização paramilitar Gladio.
Ao decorrer dos ditos “anos dourados”, de grande prosperidade, a sociedade de consumo experimentou uma acomodação política. Os partidos de extrema-direita da época viviam num estado semi-vegetativo, compostos em sua maioria por jovens entre 16 e 24 anos que não haviam vivido a desnazificação.
O problema vai emergir quando, nos anos 70, com a crise do petróleo. Revoluções socialistas eclodem no Terceiro Mundo, preocupando a classe média européia. Esse fator foi agravado pela estagnação industrial e a regressão demográfica que a Europa estava enfrentando, que causou por sua vez a “importação” mão-de-obra mais barata num movimento Sul-Norte.
Os fatores apontados acima em conjunto vão gerar um desencanto com o mundo, caldo cultural ótimo para o recrutamento e reorganização dos grupos fascistas. Tais tensões, já nos anos 80, vão crescer em tal medida que encontrarão como escape a xenofobia e o racismo, calcados na figura do estrangeiro “causador de todos os males”.
O ressurgimento da extrema-direita é baseado num “hiato de pânico e desesperança” (p. 11) que advém do colapso da ordem econômica e social. O medo, a ignorância e o desencanto devem ser combatidos a fim de se evitar uma nova barbárie de alcance mundial.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
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