
LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes: os delitos, os castigos, as penas, as impunidades. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1990.
Nascido em Turim, na Itália, em 1919, Primo Levi formou-se em Química quando ainda era permitido aos judeus freqüentar as universidades. Em 1944, foi deportado para Auschwitz, só sendo libertado de lá no final da guerra. Morreu no ano de 1987, ao sofrer um acidente em sua própria casa, fato que criou grande polêmica em torno de sua morte, que alguns pensam ter sido suicídio.
Autor de É isto um homem (1947), primeiro livro a relatar o cotidiano do mundo concentracionário de Auschwitz, Levi faz nesse livro um balanço de suas memórias, particularmente perceptível no último capítulo, alertando principalmente as novas gerações do perigo que a humanidade ainda corre. Ao longo da obra ainda desconstrói várias visões comuns que se tem sobre os Lager, os campos de concentração e extermínio, que, no entanto, não ocorriam.
Esse balanço embebido de memória se justifica pelo fato de que “Em nenhum outro tempo e lugar se assistiu a um fenômeno tão imprevisto e tão complexo: jamais tantas vidas humanas foram eliminadas num tempo tão breve, e com uma tão lúcida combinação de engenho tecnológico, de fanatismo e de crueldade” (p. 7).
Ainda que a memória seja a matéria prime de suas reflexões, Levi aponta que ela pode falhar. A fabricação de uma realidade conveniente tanto por parte dos torturadores quanto dos sobreviventes é um fenômeno no qual a distinção entre verdadeiro e falso vai se perdendo. No primeiro caso, o processo leva à diminuição da culpa; já no caso dos inocentes, muitas vezes à memória pessoal vai se adicionando fragmentos de histórias de outros que também sobreviveram; quanto aos parentes, esse fenômeno se traduz na invenção de uma verdade consolatória.
Para o autor, o homem é compelido a simplificar tudo entre dois pólos diametralmente opostos: “nós” e “eles”, o bem e o mal. Mas logo ao se chegar ao Lager, vê-se que esse tipo de bipartição não existe apresentada nessa forma. O choque e a surpresa advêm da existência do que o autor descreve como uma zona cinzenta, comportada por pessoas que transitam entre a fronteira inimigo e amigo.
A existência dessas figuras fantasmas, os prisioneiros privilegiados, os pridurki, e os Kapos, prisioneiros chefes que atuavam em diversas áreas, eram sistemas de reproduzir a hierarquia do regime dentro do cativeiro. Em outras palavras, de trazer para a esfera dos inocentes um pouco da culpa dos “outros”; o trabalho sujo era delegado aos prisioneiros para sua própria degradação moral. E como estes iriam recusar, se aquilo representava a sobrevivência nem que fosse por algumas semanas a mais?
Primo critica o estereótipo do fim da guerra veiculado em filmes e romances, nos quais se retrata a felicidade de todos pelo fim do sofrimento, o reencontro com os parentes e amigos. Contudo, e ao contrário do que se poderia imaginar, esse cenário de libertação era marcado pela emergência de sentimentos como a angústia e a vergonha.
Angústia pela família perdida, pelo cansaço que parecia haver consumido toda a vida e alegria. Mas também vergonha pelo sentimento de culpa; mesmo que no plano racional não seja justificável, no plano moral as coisas mudam de proporção. O mal-estar de não ter feito nada, de não ter resistido, de ter esquecido a solidariedade humana, por não ter socorrido seus iguais pode seguir o indivíduo até a morte.
Na concepção do autor, o termo “incomunicabilidade” não existe. Sempre se pode, e se deve comunicar. No universo em questão, “Saber ou não o alemão era um divisor de águas” (p. 53) e, sendo assim, os que não entendiam a língua se viam numa situação pior dos que a entendiam. A língua alemã ia pouco a pouco se transformando em golpes e tapas, atos próprios para se lidar com os animais.
O homem intelectual, no sentido de homem culto das ciências, e não só da filosofia e da política, estava numa situação pior que o inculto. Faltava-lhe força física e experiência nos trabalhos manuais, os mais requisitados nos campos. No caso de Primo, o ofício de químico o ajudou a sobreviver posto que seus serviços foram colocados à disposição de uma indústria. Da mesma forma que um trabalho especializado, a cultura, nesse contexto, podia servir de ligação com o passado nas horas mais devastadoras. O universo dos sobreviventes é amplamente marcado por algumas perguntas, normalmente feitas por jovens, quase acusatórias algumas vezes, que giram em torno de dois temas: a fuga e a rebelião. Por que não fugiram? Por que não se rebelaram? Por que não fugiram antes da captura? As respostas a tais indagações são várias, mas nem sempre entendidas, pois partem de visões de mundo diferentes, destinadas a ter seu grau de julgamento aumentado de acordo com o tempo.
No oitavo capítulo, Cartas de alemães, faz um balanço das cartas que recebeu após a publicação da tradução em alemão de seu livro É isto um homem. As quarenta cartas que apresenta tentam, em sua maioria, responder a questão: Seria possível compreender os alemães? As respostas demonstram certa vergonha por parte dos alemães em relembrar seu passado recente, o qual muitos nem viveram nem viram, mas ainda assim sentem o peso da História cair sobre si.
A experiência dos sobreviventes é decerto estranha às novas gerações, e o será mais e mais à medida que os anos se passam, em parte porque os problemas de hoje são diferentes, a configuração do mundo mudou. Mas os sinais precursores continuam a existir: violência, intolerância, fanatismos religiosos e políticos, conflitos raciais.
É essencial lembrarmos que os culpados não eram pessoas desequilibradas mentais, mas pessoas que receberam uma educação ruim, uma espécie de lavagem moral. Desse modo, Primo Levi atenta para que a responsabilidade recai sobre todos os alemães, que por preguiça mental ou outros motivos, aceitaram as belas palavras de Hitler e de seu Partido. O alerta, na verdade, se estende a todos os indivíduos. Suas memórias estão aí para relembrar que o Holocausto realmente existiu, e que é passível de acontecer de novo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário