segunda-feira, 9 de junho de 2008

Resenha O Triunfo da Vontade



O TRIUNFO DA VONTADE. Direção: Leni Riefenstahl, 1935.

A diretora do filme, Leni Riefenstahl (1902-2003), era grande fã das artes e da dança quando jovem. Trabalhou como atriz, diretora e produtora , ficando reconhecida pelo sucesso com filmes encomendados pelo Partido, como Olympia, fruto de suas filmagens durante as Olimpíadas de 1936. O prestígio como diretora se traduziu na medalha de ouro que ganhou na Feira de Paris, em 1937
Sua carreira como cineasta foi destruída com o fim da guerra, quando foi acusada de colaborar com o regime, motivo pelo qual suas obras passaram a ser encaradas como mera propaganda. No entanto, Leni não abandonou as artes. Tornou-se fotógrafa e conquistou grande prestígio com trabalhos realizados na África.
O objetivo do documentário era registrar o 6º Congresso do Partido Nacional-Socialista, realizado a 5 de setembro de 1934, em Nuremberg. O congresso anual foi dedicado à Field Marshall, primeiro soldado alemão morto na 1ª Guerra Mundial, e a todos os camaradas que também se foram lutando pelo seu país.
Produzido por ordem do Führer, o documentário mostra os discursos de grandes filiados do Partido, entre eles Goebbels e Rosenberg. Hitler é sinônimo de paz e vitória, logo se diz num dos primeiros pronunciamentos, e a “verdade é o pilar em que o poder da imprensa se apóia”, sendo esta responsável por relatar a realidade da Alemanha.
Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda do Reich, ajudou a idealizar a imagem que deveria ser passada do regime para o povo alemão, consolidando a doutrina nazista. Também controlava e censurava o conteúdo que era divulgado em jornais, filmes, livros e outros meios de comunicação.
Foi ele o célebre autor da frase “Se você contra uma mentira grande o bastante e continua repetindo-a, as pessoas vão começar a acreditar nela. A mentira só poderá ser mantida enquanto o Estado puder proteger as pessoas das conseqüências políticas, econômicas e/ou militares da mentira” . Isso é justamente o que deveria ser o objetivo da propaganda nazista perante seu povo.
As principais cenas escolhidas por Leni mostram a ovação das pessoas diante da passagem de Hitler, a rotina dos valorosos soldados da Juventude Hitlerista, paradas militares, discursos, encontros do Führer com camponeses e suas tradições. Enfim, o foco é exibir as nobres ações do líder e seus “ajudantes” que iriam transformar o país.
O documentário está povoado de simbolismos . Além de Nuremberg, a velha cidade imperial, ser um local histórico para Hitler, o título faz menção a uma idéia de Nietzsche, o qual pensava que se um ser fosse possuído pela vontade, seria capaz de se tornar inalcançável e inquebrável. Em suma, o título foi escolhido propositalmente para designar o momento em que Hitler se sentia em seu ápice, praticamente invencível.
Os méritos estéticos de Riefenstahl não ficam para trás de sua importância histórica. Leni usou várias técnicas cinematográficas para destacar a figura de Hitler quando este discursava ou passava num desfile para a população.
Sendo a película de 1935, ainda não se pode ver o que seria veiculado durante a massiva campanha contra os judeus, e o que era considerado oportuno mostrar aos alemães, o que decerto não seria muito. Mas é consistente no que diz respeito aos atos do Partido na época. Serve-nos de testemunho ao pensamento que se queria veicular naquele momento de sonhos grandiosos para a nova Alemanha. Faz sentir como se fôssemos um alemão médio, vendo as proezas de Hitler no início de seus tempos.

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