sexta-feira, 27 de junho de 2008
Resumo Texto nº 11
Para Milman, as discussões em torno do negacionismo revelam o irracionalismo das crenças cotidianas e comprovam que o anti-semitismo ainda pode ser utilizado por um projeto político. Diante dessa versão fictícia da História, é obrigação dos cientistas refutar os negacionistas em suas tentativas de descriminalizar o regime nazista, banalizar o Holocausto e reabilitar o nazifascismo como alternativa política. Os dois pressupostos da argumentação dos negadores se baseiam num complô judaico (recorrendo às doutrinas ocultistas da história) e em técnicas de “malabarismos” documentais. Os principais pensadores do movimento hoje são:
Bardèche - foi um grande articulador do reagrupamento dos militantes e teóricos de extrema-direita após a Segunda Guerra Mundial;
Rassinier - autor do primeiro livro negacionista e defensor da idéia de que houve um complô judeu internacional;
Faurisson - amplificou a obra de Rassinier, e teve em sua obra “O Boato de Auschwitz” seu maior destaque, negando o extermínio e as câmaras de gás que existiram em tal campo;
David Irving - deixou clara sua posição negacionista ao escrever a introdução do Relatório Leuchter, em 1988;
Roger Garaudy – em seu livro “Os Mitos Fundadores da Política Israelense” defende que o Holocausto foi um elemento fundador do Estado de Israel. Sofreu uma condenação de um ano de prisão além de uma multa de 60 mil francos pela publicação de seu livro.
Pode-se observar que as ideologias e doutrinas negacionistas, apesar de muitas vezes contraditórias entre si, se convergem quanto ao seu propósito: atualizar a visão da perversidade judaica. Nesse contexto, o livro “A Questão Judaica”, de Marx, contribuiu para a fundação da doutrina de paranóia anti-semita, ainda que o autor mesmo fosse judeu. Tais elaborações se tornam difíceis de refutar dado que os que dão credibilidade a esse projeto são imunes à crítica, fechados dentro desse imaginário que se pretende racional. Para concluir, o autor em questão aponta que a tarefa de confrontar os negadores com argumentos precisos e claros é uma tarefa para toda a humanidade, principalmente para as novas gerações.
sábado, 21 de junho de 2008
Resumo Texto nº10
Os crimes cometidos pelos nazistas nos impõem compromissos permanentes, e é por isso que devemos abordar o tema da negação dos assassinatos em massa cometidos pelo nacional-socialismo. À época, muitos não acreditaram, e não queriam acreditar, que alguém poderia ser capaz de fazer algo assim. Da mesma forma, hoje as declarações dos negacionistas suscitam dúvida e devem ser contra-argumentadas claramente.
Correntes de opinião poderosas forma criadas por aqueles que negam a existência de Auschwitz. Seus adeptos pretendem fazer uma revisão da história (revisionismo). Inicialmente relativizaram as declarações das testemunhas, mas depois começaram a negar os testemunhos alegando que os relatos eram exagerados. Nas décadas seguintes, os assassinatos em massa passaram a ser negados, centrando-se na quantidade de pessoas assassinadas, nas técnicas, nos documentos e nos locais dos assassinatos, e na existência das câmaras de gás. Ademais, é questionada a culpa dos alemães pela guerra.
Membros do Partido Nacional Democrático da Alemanha (NPD) ocuparam-se inúmeras vezes da negação dos assassinatos. Um dos principais argumentos era o Relatório Leuchter, documento questionável com bases supostamente empíricas que dizia que não teria havido câmaras de gás em Auschwitz. O impacto causado pelos casos fez com que vários negadores fossem presos por anos.
A argumentação dos negadores é baseada em pareceres técnicos e métodos que não correspondem aos princípios científicos e na descontextualização de documentos de fatos históricos. Os trabalhos revisionistas possuem muitos detalhismos e se centram, quanto ao conteúdo, no campo de concentração de Auschwitz e no motivo anti-semita, marcados de ódio e desprezo.
Ainda que existam vários argumentos que comprovem que houve a matança de judeus e outros indesejáveis na concepção dos nazistas, os defensores da negação, dado o nível de isolamento que chegaram, não irão discutir. Só cabe a nós argumentar contra eles.
Resumo Texto nº8
Os cultos arianos e o nazismo esotérico têm como base o conceito de raça. Os judeus representam para o neonazismo americano o fermento da sociedade liberal, enquanto que na década de 1950, o “inimigo” era a oposição aos direitos civis para os negros. Já para os grupos neonazistas britânicos, a crescente imigração de pessoas de cor é seu bode expiatório. A reintrodução da categoria de raça como fator de identificação foi permitida por vários motivos. Nos EUA, as políticas adotadas pelo governo para lidar com a emergência do poder negro frente ao domínio racial branco, como por exemplo, programas de oportunidades iguais, foi o grande estopim.
Os grupos arianos e neonazistas necessitam de mitologias para negar o domínio branco sobre os demais. A adoção da cronologia hindu por figuras como Julius Evola, Savitri Devi e Miguel Serrano, a qual traz a promessa de uma era dourada após o grande declínio dos homens, faz parte desse movimento. É também nesse contexto que se insere a filosofia mítica que afirma que as raças européias estão incapacitas pelas influências judaicas de criar um poderoso Império mundial.
As forças de globalização e de imigração, o multiculturalismo e a erosão do conceito de soberania nacional desempenham forte papel no ideário mítico dos neonazistas. A partir da década de 1980, a extrema-direita renova seu vigor nos EUA e na Grã-Bretanha, que pode ser visto através das gangues racistas, da white music e da criação de religiões populares de identidade branca. Esses fenômenos podem ser considerados sintomas da desestabilização das democracias ocidentais no caminho de um novo movimento de extrema-direita melhor consolidado e preparado.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Resenha Os afogados e os sobreviventes

LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes: os delitos, os castigos, as penas, as impunidades. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1990.
Nascido em Turim, na Itália, em 1919, Primo Levi formou-se em Química quando ainda era permitido aos judeus freqüentar as universidades. Em 1944, foi deportado para Auschwitz, só sendo libertado de lá no final da guerra. Morreu no ano de 1987, ao sofrer um acidente em sua própria casa, fato que criou grande polêmica em torno de sua morte, que alguns pensam ter sido suicídio.
Autor de É isto um homem (1947), primeiro livro a relatar o cotidiano do mundo concentracionário de Auschwitz, Levi faz nesse livro um balanço de suas memórias, particularmente perceptível no último capítulo, alertando principalmente as novas gerações do perigo que a humanidade ainda corre. Ao longo da obra ainda desconstrói várias visões comuns que se tem sobre os Lager, os campos de concentração e extermínio, que, no entanto, não ocorriam.
Esse balanço embebido de memória se justifica pelo fato de que “Em nenhum outro tempo e lugar se assistiu a um fenômeno tão imprevisto e tão complexo: jamais tantas vidas humanas foram eliminadas num tempo tão breve, e com uma tão lúcida combinação de engenho tecnológico, de fanatismo e de crueldade” (p. 7).
Ainda que a memória seja a matéria prime de suas reflexões, Levi aponta que ela pode falhar. A fabricação de uma realidade conveniente tanto por parte dos torturadores quanto dos sobreviventes é um fenômeno no qual a distinção entre verdadeiro e falso vai se perdendo. No primeiro caso, o processo leva à diminuição da culpa; já no caso dos inocentes, muitas vezes à memória pessoal vai se adicionando fragmentos de histórias de outros que também sobreviveram; quanto aos parentes, esse fenômeno se traduz na invenção de uma verdade consolatória.
Para o autor, o homem é compelido a simplificar tudo entre dois pólos diametralmente opostos: “nós” e “eles”, o bem e o mal. Mas logo ao se chegar ao Lager, vê-se que esse tipo de bipartição não existe apresentada nessa forma. O choque e a surpresa advêm da existência do que o autor descreve como uma zona cinzenta, comportada por pessoas que transitam entre a fronteira inimigo e amigo.
A existência dessas figuras fantasmas, os prisioneiros privilegiados, os pridurki, e os Kapos, prisioneiros chefes que atuavam em diversas áreas, eram sistemas de reproduzir a hierarquia do regime dentro do cativeiro. Em outras palavras, de trazer para a esfera dos inocentes um pouco da culpa dos “outros”; o trabalho sujo era delegado aos prisioneiros para sua própria degradação moral. E como estes iriam recusar, se aquilo representava a sobrevivência nem que fosse por algumas semanas a mais?
Primo critica o estereótipo do fim da guerra veiculado em filmes e romances, nos quais se retrata a felicidade de todos pelo fim do sofrimento, o reencontro com os parentes e amigos. Contudo, e ao contrário do que se poderia imaginar, esse cenário de libertação era marcado pela emergência de sentimentos como a angústia e a vergonha.
Angústia pela família perdida, pelo cansaço que parecia haver consumido toda a vida e alegria. Mas também vergonha pelo sentimento de culpa; mesmo que no plano racional não seja justificável, no plano moral as coisas mudam de proporção. O mal-estar de não ter feito nada, de não ter resistido, de ter esquecido a solidariedade humana, por não ter socorrido seus iguais pode seguir o indivíduo até a morte.
Na concepção do autor, o termo “incomunicabilidade” não existe. Sempre se pode, e se deve comunicar. No universo em questão, “Saber ou não o alemão era um divisor de águas” (p. 53) e, sendo assim, os que não entendiam a língua se viam numa situação pior dos que a entendiam. A língua alemã ia pouco a pouco se transformando em golpes e tapas, atos próprios para se lidar com os animais.
O homem intelectual, no sentido de homem culto das ciências, e não só da filosofia e da política, estava numa situação pior que o inculto. Faltava-lhe força física e experiência nos trabalhos manuais, os mais requisitados nos campos. No caso de Primo, o ofício de químico o ajudou a sobreviver posto que seus serviços foram colocados à disposição de uma indústria. Da mesma forma que um trabalho especializado, a cultura, nesse contexto, podia servir de ligação com o passado nas horas mais devastadoras. O universo dos sobreviventes é amplamente marcado por algumas perguntas, normalmente feitas por jovens, quase acusatórias algumas vezes, que giram em torno de dois temas: a fuga e a rebelião. Por que não fugiram? Por que não se rebelaram? Por que não fugiram antes da captura? As respostas a tais indagações são várias, mas nem sempre entendidas, pois partem de visões de mundo diferentes, destinadas a ter seu grau de julgamento aumentado de acordo com o tempo.
No oitavo capítulo, Cartas de alemães, faz um balanço das cartas que recebeu após a publicação da tradução em alemão de seu livro É isto um homem. As quarenta cartas que apresenta tentam, em sua maioria, responder a questão: Seria possível compreender os alemães? As respostas demonstram certa vergonha por parte dos alemães em relembrar seu passado recente, o qual muitos nem viveram nem viram, mas ainda assim sentem o peso da História cair sobre si.
A experiência dos sobreviventes é decerto estranha às novas gerações, e o será mais e mais à medida que os anos se passam, em parte porque os problemas de hoje são diferentes, a configuração do mundo mudou. Mas os sinais precursores continuam a existir: violência, intolerância, fanatismos religiosos e políticos, conflitos raciais.
É essencial lembrarmos que os culpados não eram pessoas desequilibradas mentais, mas pessoas que receberam uma educação ruim, uma espécie de lavagem moral. Desse modo, Primo Levi atenta para que a responsabilidade recai sobre todos os alemães, que por preguiça mental ou outros motivos, aceitaram as belas palavras de Hitler e de seu Partido. O alerta, na verdade, se estende a todos os indivíduos. Suas memórias estão aí para relembrar que o Holocausto realmente existiu, e que é passível de acontecer de novo.
Resenha O Triunfo da Vontade

O TRIUNFO DA VONTADE. Direção: Leni Riefenstahl, 1935.
A diretora do filme, Leni Riefenstahl (1902-2003), era grande fã das artes e da dança quando jovem. Trabalhou como atriz, diretora e produtora , ficando reconhecida pelo sucesso com filmes encomendados pelo Partido, como Olympia, fruto de suas filmagens durante as Olimpíadas de 1936. O prestígio como diretora se traduziu na medalha de ouro que ganhou na Feira de Paris, em 1937
Sua carreira como cineasta foi destruída com o fim da guerra, quando foi acusada de colaborar com o regime, motivo pelo qual suas obras passaram a ser encaradas como mera propaganda. No entanto, Leni não abandonou as artes. Tornou-se fotógrafa e conquistou grande prestígio com trabalhos realizados na África.
O objetivo do documentário era registrar o 6º Congresso do Partido Nacional-Socialista, realizado a 5 de setembro de 1934, em Nuremberg. O congresso anual foi dedicado à Field Marshall, primeiro soldado alemão morto na 1ª Guerra Mundial, e a todos os camaradas que também se foram lutando pelo seu país.
Produzido por ordem do Führer, o documentário mostra os discursos de grandes filiados do Partido, entre eles Goebbels e Rosenberg. Hitler é sinônimo de paz e vitória, logo se diz num dos primeiros pronunciamentos, e a “verdade é o pilar em que o poder da imprensa se apóia”, sendo esta responsável por relatar a realidade da Alemanha.
Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda do Reich, ajudou a idealizar a imagem que deveria ser passada do regime para o povo alemão, consolidando a doutrina nazista. Também controlava e censurava o conteúdo que era divulgado em jornais, filmes, livros e outros meios de comunicação.
Foi ele o célebre autor da frase “Se você contra uma mentira grande o bastante e continua repetindo-a, as pessoas vão começar a acreditar nela. A mentira só poderá ser mantida enquanto o Estado puder proteger as pessoas das conseqüências políticas, econômicas e/ou militares da mentira” . Isso é justamente o que deveria ser o objetivo da propaganda nazista perante seu povo.
As principais cenas escolhidas por Leni mostram a ovação das pessoas diante da passagem de Hitler, a rotina dos valorosos soldados da Juventude Hitlerista, paradas militares, discursos, encontros do Führer com camponeses e suas tradições. Enfim, o foco é exibir as nobres ações do líder e seus “ajudantes” que iriam transformar o país.
O documentário está povoado de simbolismos . Além de Nuremberg, a velha cidade imperial, ser um local histórico para Hitler, o título faz menção a uma idéia de Nietzsche, o qual pensava que se um ser fosse possuído pela vontade, seria capaz de se tornar inalcançável e inquebrável. Em suma, o título foi escolhido propositalmente para designar o momento em que Hitler se sentia em seu ápice, praticamente invencível.
Os méritos estéticos de Riefenstahl não ficam para trás de sua importância histórica. Leni usou várias técnicas cinematográficas para destacar a figura de Hitler quando este discursava ou passava num desfile para a população.
Sendo a película de 1935, ainda não se pode ver o que seria veiculado durante a massiva campanha contra os judeus, e o que era considerado oportuno mostrar aos alemães, o que decerto não seria muito. Mas é consistente no que diz respeito aos atos do Partido na época. Serve-nos de testemunho ao pensamento que se queria veicular naquele momento de sonhos grandiosos para a nova Alemanha. Faz sentir como se fôssemos um alemão médio, vendo as proezas de Hitler no início de seus tempos.
Resumo Texto nº9
O autor busca abordar a dimensão histórica dos problemas internacionais relacionados ao ressurgimento do neonazismo, da extrema-direita, do extremismo político e das gangs, fenômenos que considera associados, porém diferentes. Além disso, procura diferenciar a existência de um partido político, por um lado, e um eleitorado, por outro.
Segundo Vizentini, o grande perigo que é representado pela explosão desses movimentos na Europa em finais dos anos 1980 se traduz no fato de que a História mostrou que isso é só parte de um fenômeno mais complexo.
O nazifascismo é um movimento ligado à crise liberal e à noção de progresso que vigorava nos anos 1920. “Mas, uma vez que o progresso, o crescimento industrial e a sociedade moderna se afirmaram, eles permaneceram como filosofias marginais e exóticas” (p. 2). Outro fator importante para a ascensão do fascismo foi a conivência das democracias ocidentais, pois inicialmente pensavam que esses movimentos funcionariam como um freio ao avanço socialista.
O fascismo, na verdade, não foi destruído completamente em 1945, tanto que países como Espanha, Portugal e Grécia continuaram com regimes de perfil semelhante no poder. Ademais, com a emergência da Guerra Fria, o espectro político dos países do bloco ocidental teve que ser reconstruído, e para tanto era necessária a criação de formações de centro-direita que vinham da oposição ao fascismo.
Deveriam também reconstruir a economia dos países desse bloco. Nesse momento, o Plano Marshall desenvolveu papel decisivo no tom dos julgamentos, até que os que apoiaram financeiramente o regime acabassem escapando de uma penalização mais dura.
Muitos desses colaboracionistas se esconderam na bandeira da solidariedade anticomunista. Personalidades nazistas foram úteis pelo seu conhecimento técnico na Guerra Fria. O fascismo sobreviveu fragmentado por anos, desempenhando algumas tarefas complementares, como o ocorrido com a organização paramilitar Gladio.
Ao decorrer dos ditos “anos dourados”, de grande prosperidade, a sociedade de consumo experimentou uma acomodação política. Os partidos de extrema-direita da época viviam num estado semi-vegetativo, compostos em sua maioria por jovens entre 16 e 24 anos que não haviam vivido a desnazificação.
O problema vai emergir quando, nos anos 70, com a crise do petróleo. Revoluções socialistas eclodem no Terceiro Mundo, preocupando a classe média européia. Esse fator foi agravado pela estagnação industrial e a regressão demográfica que a Europa estava enfrentando, que causou por sua vez a “importação” mão-de-obra mais barata num movimento Sul-Norte.
Os fatores apontados acima em conjunto vão gerar um desencanto com o mundo, caldo cultural ótimo para o recrutamento e reorganização dos grupos fascistas. Tais tensões, já nos anos 80, vão crescer em tal medida que encontrarão como escape a xenofobia e o racismo, calcados na figura do estrangeiro “causador de todos os males”.
O ressurgimento da extrema-direita é baseado num “hiato de pânico e desesperança” (p. 11) que advém do colapso da ordem econômica e social. O medo, a ignorância e o desencanto devem ser combatidos a fim de se evitar uma nova barbárie de alcance mundial.
domingo, 1 de junho de 2008
Resenha Arquitetura da Destruição

ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO. Direção: Peter Cohen, 1992.
Quando jovem, Adolf Hitler gostaria de ter entrar para a Academia de Artes de Viena. Autodenominava-se um artista, e não um político, e imaginava que, assim que a guerra acabasse, se voltaria à carreira de artista. Seu sonho, na verdade, era ser arquiteto, coisa que de alguma forma logrou conquistar.
Esse é exatamente o ponto central do filme. Grande admirador de Richard Wagner (1813-1883), compositor alemão que serviu de inspiração para alguns dos ideais nazistas de “pureza racial”, Hitler partilhava deste a idéia de que a arte serviria como base para uma nova e melhor civilização. Criou os uniformes e bandeiras nazistas, além de ter projetado alguns edifícios da nova Alemanha.
Nesse sentido, vida e arte estavam entrelaçadas no novo Estado, sendo a última considerada uma representação da raça. Com a fundação da Sociedade Nacional-Socialista de Cultura Alemã, que em 1938 passou a ser chamada de Defesa da Cultura Alemã, quadros de inspiração clássica eram escolhidos para representar o ideal estético de beleza e superioridade racial, frente às “obras degeneradas” dos bolcheviques.
Albert Speer foi o encarregado por Hitler da estruturação da nova Alemanha, cujo pilar era o erguimento de novas cidades a partir de uma arquitetura que acompanhasse a grandeza da nação. Dessa forma, essas construções ostentavam proporções imensas, abrangendo mais de quarenta cidades, e eram fortemente inspiradas na Antigüidade, principalmente em Atenas, Esparta e a República Romana.
A visita a Paris que o Führer fez logo após a ocupação alemã em 1940 o ajudou a idealizar a nova Berlim, a nova capital do mundo que deixaria a capital francesa à sombra de sua beleza e grandiosidade. O Arco do Triunfo alemão seria duas vezes maior que o francês, o Centro Cultural dezessete vezes maior que a Catedral de São Pedro, e o Congresso, por sua vez, foi inspirado no Coliseu.
O objetivo da guerra também era inspirado na Antigüidade: não bastava somente obter a vitória, mas também se fazia necessário aniquilar o povo e a cidade inimiga. Os prisioneiros de guerra, da mesma forma que os antigos bárbaros, eram recrutados para construir as novas cidades e trabalhar nas indústrias alemãs.
Hereditariedade, teoria racial, eugenia, limpeza racial e um vago princípio de beleza se mesclam num conceito de saúde a ser alcançado através da ciência. Essa forma de encarar o mundo, a qual pode ser ilustrada pelo fato de que 45% dos médicos alemães pertenciam ao Partido Nacional-Socialista, estava a um pequeno passo da política de extermínio levada a cabo pelo regime.
A visão de mundo nazista, com a ajuda da propaganda de Goebbels, levava a crer que era essencial a exclusão de judeus e outras categorias que fossem consideradas culpadas pela decadência alemã. A sociedade em geral era levada a acreditar que eram piolhos, bactérias, insetos, vermes e, portanto, deveriam ser exterminados.
A partir de agosto de 1941, a solução final dos judeus começou a movimentar-se com toda força total. Câmaras de gás como as usadas para matar os doentes mentais no Projeto T4 foram instaladas em Treblinka e Sobibor. No entanto, Auschwitz foi o primeiro lugar escolhido para se testar o verdadeiro extermínio em massa.
Os testes conduzidos com o Zyklon B, inseticida à base de cianeto usado para exterminar pragas, fizeram-no passar a ser utilizado para pessoas. Unia numa só fórmula as idéias de bem-estar, conservação e limpeza num conceito mais amplo de saúde. O genocídio, então, passou a ser encarado como uma medida de higiene imperiosa.
Quando alguns artistas alemães são contratados com o objetivo de retratar a frente de guerra com os russos, e acabam capturando em seus pincéis a derrota alemã, a guerra inútil contra os aliados se evidencia. No entanto, quanto maior era a evidência de que essa guerra era improdutiva, maior era a perseguição e o extermínio de judeus.
O que aconteceu na Alemanha nazista talvez tenha sido somente uma possível visão do futuro. “Da derrota, nova semente brotará”; Hitler conseguiu afinal concretizar seu sonho. Sua morte inspirou os que acreditavam em seus ideais e ainda inspirará as gerações a vir. O destino, com efeito, é a forma mais representativa da arte.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Resumo Texto nº6
Segundo Bauman, é impossível continuarmos a “fingir que temos pleno alcance do funcionamento de nossas instituições sociais, estruturas burocráticas e tecnologia” (p.106) após os acontecimentos de Auschwitz. Apesar de a vida estar melhorando e as instituições parecerem estáveis, a possibilidade do Holocausto ainda não foi eliminada. Em 1941 também, não se esperava o Holocausto, mas depois de um ano, e para a incredulidade de todos, o inimaginável ocorreu. A diferença entre 1941 e hoje é que sabemos que o “inimaginável deve ser imaginado” (p. 108).
O Problema
O Holocausto não deve ser visto somente como um assunto de interesse acadêmico. Primeiro porque, ainda que mudou o curso da história, não mudou nas mesmas proporções nossa consciência de civilização moderna, o que significa que podemos ainda estar despreparados para reconhecer os sinais de alerta. Ademais, parece que as condições que originaram o Holocausto ainda estão presentes, ainda mais se pensarmos na falta de limite ético-moral do Estado moderno.
A principal causa de preocupação é o fato de que foi a própria civilização moderna e suas conquistas que propiciaram o Holocausto, e, mais assustadoramente, as redes de controle e equilíbrio que o processo civilizador construiu, muito hábeis em promover um senso de segurança, se mostraram ineficazes em evitá-lo.
Genocídio Adicional
O assassinato em massa não é uma invenção moderna e, portanto, a modernidade, mesmo que trouxesse em seu projeto um fim à desumanidade do homem, não é responsável pelo Holocausto. No entanto, a civilização moderna teve um papel ativo em sua extensão, o que, em outras palavras, significa que o Holocausto foi tanto um produto como um fracasso da modernidade. O assassinato em massa foi singular no sentido de sua escala, pois por mais que os assassinatos sejam baseados na fúria e na raiva, e por isso mesmo incapazes de continuarem por muito tempo, a quantidade de pessoas mortas e em tão pequeno espaço de tempo foi única. O projeto levado a cabo por Hitler pressupõe nenhuma espontaneidade e cálculo racional e meticuloso. O extermínio do inimigo passa de um fim a um meio para se chegar ao fim em si, sendo este a construção de uma sociedade melhor. Nesse sentido, nos genocídios modernos, a sociedade deve ser sempre pensada a partir de um plano com bases científicas e com ideais de aspiração a uma beleza superior. A nova sociedade deve ser ordeira, racional, absolutamente controlada e perfeita. É só no momento em que o impulso em direção a esse mundo artificialmente harmonioso não é mais controlado que o Holocausto se torna um subproduto da modernidade.
Peculiaridade do genocídio moderno
O Holocausto é único devido a duas razões: porque é único em relação a outros casos de genocídio e porque só é possível quando se conjugam certos fatores comuns próprios da sociedade moderna. Ao mesmo tempo em que é normal, é também um evento singular. Dentre os fatores que contribuíram para a produção do Holocausto se encontram o anti-semitismo radical nazista, a transformação desse fator na política de um Estado centralizado, a existência de um aparato burocrático eficiente e a não-interferência da população. A conduta humana, ao longo do processo civilizador, pode conceber uma escala de desumanidade e destruição inconcebível enquanto os homens eram guiados apenas pelas predisposições naturais. A sociedade polida, gentil, civilizada, é aquela em que a violência é removida da vida cotidiana e, assim, concentra-se em outros lugares em que é aperfeiçoada, transformando-se em técnica racional.
Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
A violência se torna mais eficiente à medida que os meios se tornam mais instrumentais e racionais, ou seja, afastados de uma avaliação moral dos fins. Tal divisão é fruto de dois processos: a meticulosa divisão do trabalho e a substituição da responsabilidade moral pela técnica, que se dão através do distanciamento do produto final criado a partir da divisão funcional do trabalho. A função, por si mesma, não tem significado, restando a “outros” a responsabilidade pelo significado. O resultado disso é a dissociação dos padrões morais e a operação burocrática.
Desumanização dos objetos burocráticos
Os objetos em questão na ação burocrática são reduzidos a um conjunto de medidas, desprovidos de qualidade, perdendo, assim, sua identidade. Quando o processo de desumanização é efetivado, aos objetos não é mais reconhecido demandas morais, levando a serem encarados como incômodos.
O papel da burocracia no Holocausto
A burocracia perde de vista o objetivo original e se concentra nos meios, os quais transformam em fins com o objetivo de criar uma ordem social melhor e mais racional.
Falência das salvaguardas modernas
A violência é vista como uma forma de se fazer a segurança, posto que ao concentrar-se às margens da sociedade moderna, armazena-se ao ponto de ficar incontrolável. Nesse sentido, a confiança nas salvaguardas é posta em jogo, e os princípios da ciência moderna assumem lugar de ideologia nas mãos do Estado. O culto da racionalidade é o único que pode substituir a religião e a ética para ordenar o comportamento humano.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Resumo Texto nº5
I
O alinhamento anômalo de Estados e movimentos contra a ideologia alemã, pilar central da aliança entre Alemanha, Itália e Japão, os ditos países do Eixo, foi uma situação que durou de 1939-1945, em outras palavras, existiu durante a ascensão e queda da Alemanha de Hitler. Enquanto o delineamento das linhas que dividiam a guerra foi deixado de lado, cada país resolvia as coisas de acordo com seus interesses (Realpolitik). Os Estados democráticos liberais, Estados vitoriosos da 1ª Guerra Mundial, evidenciavam sua incapacidade de agir contra o inimigo, em parte pela lembrança ainda recente da 1ª GM. A URSS, no entanto, não hesitou em opor-se à Alemanha nazista, o que contribuiu para um choque ainda maior quando da assinatura do pacto. É importante frisar, no entanto, que as linhas divisórias da guerra eram em função de famílias ideológicas: de um lado os descendentes do Iluminismo, e do outro seus adversários. Nesse sentido, ela foi internacional porque originou as mesmas questões na maioria dos países ocidentais, e civil, pois as linhas cortavam cada sociedade.
II
A união das forças políticas de resistência ao Eixo demorou mais de oito anos para ser alcançada, em parte pelo medo que alguns ainda conservavam da idéia do bolchevismo como inimigo primeiro. Essa demora em unir-se contra o inimigo comum explica o porquê de Stálin ter assinado o Pacto Stalin-Ribbentrop de agosto de 1939. França e Inglaterra sabiam só possuir um status quo instável, portanto não lhes era viável começar uma guerra. A solução era, em princípio, negociar com a Alemanha e fazer concessões, se necessário, nos moldes da política de “apaziguamento”. Entretanto, a negociação se mostrou impossível pelo caráter irracional e ilimitado dos objetivos políticos do inimigo, o que originou a exclusão da realpolitik como ferramenta. Ainda que os realistas políticos do apaziguamento continuassem tentando negociar, a política de Hitler após Munique impossibilitou outra saída senão uma guerra que ninguém queria. No final, foi Hitler quem mobilizou contra si as massas. Os comunistas funcionavam de forma sistemática: criaram Frentes Populares, uma aliança eleitoral e política com os democratas e liberais; foram hábeis em organizar os adversários tradicionais da direita; e mobilizaram em massa os intelectuais. O mais difícil, porém, era mobilizar os cidadãos comuns, uma vez que viam as barbaridades da Alemanha como “aberrações limitadas”, na pior das hipóteses, ou simplesmente como um país estável com um governo popular um pouco antipático.
III
A Guerra Civil Espanhola (1936-39) foi uma versão em miniatura de uma guerra européia. Foi nela que as disputas transnacionais se evidenciaram e que os dois campos de combate se definiram: democracia e revolução social contra reação inspirada pela Igreja Católica. Quando a esquerda descobre a Frente Popular do Comintern e ganha as eleições em fevereiro de 1936, a fermentação social ganha vida e a insatisfação social pode finalmente jorrar. Resultado disso foi o golpe militar de 17 de julho dado pela Falange, um pequeno movimento fascista local de generais financiado pela Itália, pela Igreja e por monarquistas. O golpe não teve êxito em todas as cidades, e enfrentou grande resistência que ocasionou uma guerra civil entre a República (governo de direito) e os generais insurgentes, cujo líder era Francisco Franco. Ao longo da guerra, o governo franquista se impôs como um Estado autoritário de partido único, a Falange Tradicionalista Espanhola. Apesar do Acordo de Não-Intervenção, Itália e Alemanha enviaram armas e homens em ajuda a Franco, enquanto que milhares de voluntários lutaram numa guerra que tomaram como própria.
IV
A Guerra Civil Espanhola antecipou as forças que destruiriam o fascismo, a aliança única de frentes nacionais para a derrota do inimigo comum e para a regeneração social (exemplo disso foi o governo de Winston Churchill, que se comprometeu com um Estado de bem-estar durante a guerra). A maioria dos governos fez um esforço intelectual para aprender o que haviam feito de errado e evitar que o erro se repetisse. E, com razão, após a vitória, todos os governos eram representativos das forças antifascistas que haviam lutado unidas. A questão central se tornaria a defesa da democracia.
V
Com a entrada dos EUA na guerra, uma aliança firmou-se entre os norte-americanos e a URSS, entre o capitalismo e o comunismo. Os movimentos de Resistência tinham pouca importância militar, restando em seu significado político e moral a sua maior força. Pendiam para a esquerda, o que justifica o aumento expressivo de votos para os partidos comunistas, corpo especialista de “revolucionários profissionais” que se dedicavam apaixonadamente às suas causas.
VII
“...para a maior parte da Ásia , África e o mundo islâmico, o fascismo, como ideologia ou como política de um Estado agressor, não era e jamais se tornou o principal e muito menos o único inimigo. Este era o ‘imperialismo’ ou o ‘colonialismo’...” (p.171). A luta contra o fascismo causou muitas contradições nesses países. O Japão, por exemplo, foi por vezes considerado um defensor dos não-brancos contra o imperialismo dos brancos; quanto aos comunistas de países como Índia e Vietnã, ora lutavam contra o imperialismo (pacto URSS-Alemanha), ora tinham que defender o comunismo em detrimento da independência de seu povo, estratégia que se mostrou bastante impopular. Já um grupo de judeus na Palestina foi capaz de negociar a libertação dos britânicos com os alemães. Tais questões não demonstram uma simpatia pelo fascismo, e sim uma tática política. Com efeito, a maioria dos movimentos de libertação pendia para a esquerda internacional.
VIII
A atração que o fascismo exerceu não ultrapassou seus limites originais à guerra. O que realmente mudou foi a suscetibilidade ao socialismo na qual grande parte da Europa se encontrava após a guerra. No entanto, não tardou muito para que a política voltasse a se desenrolar como antes: o projeto de união não havia sido feito para durar. Apesar de que quase todos agora se voltassem a uma economia administrada pelo Estado, capitalismo e comunismo estavam preparados para se enfrentar novamente.
domingo, 6 de abril de 2008
Resenha Homo Sapiens 1900
Peter Cohen nasceu na Suécia em março de 1946. O fato de ser filho de um judeu alemão que fugiu de Berlim, escapando da perseguição nazista, é decisivo para sua obra. Produziu mais de quarenta documentários e filmes, com destaque a Arquitetura da Destruição.
Em Homo Sapiens 1900, Cohen mostra como a vontade de melhorar, que sempre moveu o homem ao longo da história, adquiriu faces horrendas em nome da eugenia, em outras palavras, o aperfeiçoamento do homem por meio da genética. Essa idéia, datada de 1900, iria ficar para sempre manchada na memória do século XX.
O conceito de higiene racial, inaugurado por Ploetz, começou a ganhar popularidade já no início do século XX. Baseado na observação de que deveria haver um controle da seleção natural, indicava dois caminhos a serem seguidos: cruzar os considerados superiores entre si, ou impedir que raças inferiores se reproduzissem. Foi assim que, escolhendo o segundo caminho, países como os EUA e a Suécia defenderam leis de esterilização a fim de “limpar” as pessoas que não se enquadravam em seus ideais de raça.
Na Alemanha, o Partido Nacional Socialista foi o primeiro a adotar a higiene racial como ponto central de seu programa. Acreditavam que o bem-estar da sociedade moderna dependia da qualidade do sangue e da raça. Como a eugenia positiva não funcionou por entrar diretamente em contradição com a defesa da união da família, optou-se por um programa de exclusão dos julgados mental ou fisicamente inferiores.
É importante destacar que as idéias baseadas na eugenia migraram de um conceito da biologia para o da política e da antropologia, e ao serem colocados em prática causaram estragos maiores do que talvez seus defensores poderiam ter imaginado inicialmente.
Resumo Texto Nº 3
Para alguns autores, os movimentos iniciais representam os “fascismos puros”, enquanto que os que efetivamente chegaram ao poder foram deformados pela ampla teia de conciliações necessárias para se chegar a essa posição. Ademais, os regimes tiveram mais impacto pelo poder de decisão que concentravam. Para melhor entender o que foi o fascismo, então, devemos vê-lo como uma rede de relações ativa.
Interpretações conflitantes
O autor aponta diversas interpretações do fascismo, apontando suas falhas e as razões pelas quais não permitem a construção de um modelo satisfatório.
As imagens que fazem do fascismo não conseguem explicar porque se deu em um determinado lugar e uma determinada época, e nem se estão relacionados a uma história anterior. Somente levam em consideração que é uma ação perversa de rufiões que chegaram ao poder em razão da decadência moral.
Já a visão do fascismo como instrumento do capitalismo traz duas conclusões erradas:
1- A terceira Internacional de Stálin negava suas raízes autônomas e seu poder de agitação das massas, além de excluir o fator escolha humana desse somatório de forças. Os marxistas ortodoxos reduziam os movimentos a um simples desdobramento de uma crise capitalista. Na verdade, sabe-se que, quando a escolha pela democracia era impossível, os capitalistas preferiam os regimes autoritários aos fascistas, se adaptando (se acomodando) a estes da melhor maneira que podiam, já que se tornava o único caminho não-socialista no momento;
2- Coloca a comunidade empresarial no papel de vítima do fascismo, levando a sério demais os conflitos entre os escalões médios.
Uma outra forma de ver o fascismo foi a busca por interpretações psicológicas devido ao caráter obsessivo dos líderes ou dos fiéis. No entanto, não explicam, se de fato alguns líderes eram loucos, como se sustentaram no poder por tanto tempo, ou como as pessoas comuns se adaptaram ao regime na sua vida cotidiana.
Uma explicação que perdurou por muito tempo foi a do fascismo como fenômeno da modernização. Talcott Parsons acreditava que o fascismo era fruto das tensões de classe oriundas de um desenvolvimento desigual em sociedades de modernização tardia. Assim como os marxistas, tratou o tema como produto da história. Não obstante, uma economia “dual” (setor camponês e artesãos trabalhando paralelamente a uma indústria moderna) ocorreu na França sem a emergência do fascismo.
Outro enfoque do tipo sociológico foi o de ver no nivelamento urbano e industrial, a partir de fins do século XIX, a causa da produção de uma sociedade de massas atomizada. Hannah Arendt entende a questão a partir das massas desenraizadas, que por não terem vínculos morais de qualquer espécie e alimentarem paixões anti-semitas e imperiais, possibilitaram uma ditadura plebiscitária de poderes ilimitados. Contudo, estudos comprovam que um dos principais meios que o nazismo utilizou para lançar raízes foi o apelo ao recrutamento de organizações.
Há alguns estudiosos que propõe o modelo de ditadura desenvolvimentista, cujo principal objetivo era acelerar o crescimento industrial através do recrutamento de mão-de-obra. O grande problema dessa visão é que o fascismo não seguia um objetivo racional.
Outra explicação corrente é a de que o fascismo surgiu por causa de ressentimentos da classe média inferior, sendo classificado com um “extremismo do centro”. As falhas dessa explicação residem no fato de que o recrutamento não se localizava em apenas uma classe, e sim numa multiplicidade de apoio social. Prova disso foram as flutuações no nº de afiliados do partido nazista antes que chegasse ao poder.
Ainda que consideremos todas essas visões, numerosos observadores consideram o fascismo como um tipo de totalitarismo. O termo foi assumido por Mussolini no sentido de designar as aspirações fascistas ao controle total. Os teóricos de 1950 viam em Hitler e Stálin as figuras-chave desse sistema, pois ambos governos eram de partido único, usavam um controle oficial terrorista e tinham o monopólio de poder das forças armadas, dos meios de comunicação e da organização econômica. Nos anos 1960, esses teóricos foram acusados de estarem transferindo o inimigo do nazismo para o comunismo. Após a queda da URSS, no entanto, o modelo voltou à moda. O enfoque está na aspiração de ambos ao controle total e nas ferramentas para se chegar a esse controle. Todavia, apesar de que os mecanismos de controle tenham sido semelhantes, os objetivos não foram. Enquanto Stálin governava uma sociedade civil e não tinha que disputar politicamente com poderes herdados, e tinha como objetivo a igualdade universal, Hitler dependia das elites tradicionais, e seu fim era a supremacia da raça ariana. Esse modelo leva a uma comparação moral entre os dois regimes e deixa de lado a natureza caótica do poder.
A tentativa de ver os regimes como uma religião política parte da proposição de querer entender a maneira como mobilizavam os fiéis. Esse conceito tem três falhas primordiais:
1- O fato de se aproximarem por utilizar ritos e palavras sagradas, não admitindo cisões, pode ser explicado na apropriação de elementos da própria cultura da sociedade que os fascistas desejavam conquistar;
2- Quer que acreditemos que a lacuna deixada pela secularização da sociedade e da moral
foi mais severa na Alemanha que em outros países europeus, coisa difícil de acreditar.
3- Encara as religiões estabelecidas e o fascismo como adversários irreconciliáveis, mesmo que as religiões e os regimes tenham se associado contra o comunismo, ou, em casos como o da Romênia, tenha se firmado como um substituto cristão não-autorizado.
Trabalhar o fascismo como uma ideologia, problema já discutido na Introdução, parte do princípio de que suas idéias foram extraídas de programas partidários, assim como foi feito em outros “ismos”, que partiam de uma elite culta. No entanto, esse tipo de posição intelectual foi abandonado em detrimento do que o regime necessitava em cada momento, sem que se justificasse as alterações feitas.
Além do olhar sociológico, o olhar antropológio/etnográfico adentrou o fascismo. Os estudos culturais vêm substituindo a história intelectual como meio de entender a atração que o fascismo exercia sobre as massas. Contudo, não conseguem explicar como os fascistas chegaram a controlar a cultura, até que ponto influenciaram as pessoas ou porque se sobrepuseram ao poder da mídia comercial, bem maior Ademais, é difícil reunir tantas culturas nacionais diferentes em um único programa cultural.
Como pode ser visto nas análises acima, todas as interpretações até agora foram insatisfatórias na tarefa de fornecer um modelo não estático do fascismo.
Fronteiras
O autor defende que é necessário traçar fronteiras claras entre o fascismo e outras formas assemelhadas, tarefa que se torna ainda mais difícil em razão das imitações que esse regime sofreu, principalmente na década de 1930.
Gaetano Salvemini defende que o fascismo, típico das democracias fracassadas, em vez de manter as massas em silêncio, “encontrou uma técnica para canalizar suas paixões para a construção de uma unidade doméstica compulsória” (p.354). Por esse motivo, não devemos confundir fascismo com a tirania das ditaduras pré-democráticas.
Às ditaduras militares falta a excitação do povo, mesmo que tenham em comum a militarização das sociedades. Já o autoritarismo (ou ditadura tradicional), tem fronteiras mais sutis com o fascismo. Ambos desrespeitam as liberdades civis e desejam um Estado forte, porém o autoritarismo limita a ação do Estado, além de não querer acabar totalmente com a esfera do privado.
Quanto à Espanha, Portugal e França, pode se dizer que:
1- O Estado do General Francisco Franco imitou alguns aspectos do governo de seu aliado Mussolini, porém intervinha pouco na economia e prezava pela passividade do povo;
2- O Estado Novo de Salazar era limitado e preferia um público passivo, em que o poder ainda se mantinha nas mãos dos proprietários de terras, Igreja e exército;
3- O governo de Vichy não era de partido único e nem possuía organizações paralelas (só foram surgir na luta contra a Resistência), e conferia poder a militares, à Igreja e às elites econômicas já estabelecidas. Segundo Paxton, se enquadra na categoria de autoritário.
O que é o fascismo?
O fascismo deve ser definido como uma forma política permeada por uma visão obsessiva de decadência e humilhação da comunidade, tida como vítima. Por essa razão, “passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza” (p. 359). Por não apresentar uma ideologia dogmática, mesmo que seus representantes tivessem um objetivo, é essencial estudar as ações fascistas para entender quais as idéias que se encontram por trás desse pensamento. É nesse sentido que os nove tópicos que o autor define como “sentimentos viscerais” ou “paixões mobilizadoras” representam um resumo do que seria o típico comportamento e sentimento fascista.
É importante frisar que em todos os países democráticos existe o fascismo no estágio 1, no entanto foram poucos os que alcançaram o estágio 2. Vale lembrar que são as decisões humanas que mudam o rumo da história, impedindo que movimentos e regimes como os estudados cheguem ao poder. A escolha certa vai depender sempre da compreensão dos erros do passado por parte dos que detêm o poder político, econômico e social.
segunda-feira, 31 de março de 2008
Resumo Texto nº 2
O autor afirma que as imagens familiares que nos remetem ao fascismo são perigosas pois podem induzir-nos a erros. A imagem do ditador-todo-poderoso, por exemplo, desvia nossa atenção de todos os que estiveram apoiando essa figura central. Um modelo mais atento teria que examinar as interações entre Líder e massa, Partido e sociedade. Da mesma forma, o anti-semitismo não é característica fundamental do fascismo. Nos primeiros tempos da Itália de Mussolini, o líder tinha a seu lado industriais judeus que lhe deram apoio financeiro.
Quanto ao regime ser anticapitalista e antiburguês, podemos perceber uma grande diferença entre o discurso e a prática. As ameaças contra o capitalismo não se fizeram cumprir, enquanto que as ameaças ao socialismo foram postas violentamente em prática. Proibiram greves e investiram maciçamente nas indústrias armamentistas. Devido a essa grande variação de discurso, alguns estudiosos pensam o fascismo como forma radical de anticapitalismo, enquanto outros acham que ele veio socorrer o capitalismo.
O discurso anticapitalista era seletivo. Criticavam as finanças especulativas internacionais, porém não mudaram a hierarquia social e respeitaram os produtores nacionais. O materialismo e a indiferença com a nação foram os alvos principais da crítica anticapitalista. As denúncias antiburguesas recaíam sobre seu caráter individualista, impedidor do fortalecimento da nação. As mudanças “revolucionárias” do fascismo residiram na transformação da prática da cidadania, na reformulação das fronteiras entre público e privado, na renovação das relações entre indivíduo e coletividade, na ampliação dos poderes do executivo e no desencadeamento de emoções agressivas.
Havia um grande espaço entre o discurso de exaltação da vida rural e a modernização acelerada. Para entender essa oposição, é necessário “acompanhar a relação entre a modernidade e o fascismo ao longo de sua complexa trajetória histórica. Os primeiros movimentos fascistas exploraram os protestos das vítimas da industrialização rápida e da globalização” (p. 31), usando técnicas modernas de propaganda. Inúmeros intelectuais “modernistas” achavam interessante a combinação da aparência hightech e a crítica às sociedades modernas. O que realmente procuravam era a uma modernidade em que não houvesse tensões, dependente portanto da integração e controle fascistas. Para o autor, a modernidade alternativa fascista também foi responsável pela “limpeza étnica” nazista, baseada na eugenia e na racionalidade que parecia rejeitar a moralidade.
As imagens pecam por enfocar momentos grandiosos e omitir o cotidiano, a cumplicidade das pessoas comuns e das elites tradicionais que permitiram seu funcionamento. Talvez ser complacente com o regime significasse ter que fechar os olhos para alguns excessos aparentemente inofensivos. Os episódios da Kristallnacht, por exemplo, geraram grande indignação por parte de muitos alemães, mas foi passageira. É a partir do entendimento de como o sistema judicial, as autoridades religiosas e os civis consentiram em deixar uma minoria militante praticar tantos atos brutais é que saberemos o quê foi o regime fascista na Alemanha.
A maioria das pessoas pensa que o fascismo é uma ideologia. Os líderes mesmo afirmavam isso (Mussolini e seu “credo fascista”, Hitler e sua “visão de mundo”). No entanto, o fascismo não se baseia em nenhum sistema filosófico de algum pensador sistemático, como nos “ismos”, “e sim no sentimento popular sobre as raças superiores, as injustiças de suas condições atuais e seu direito a predominar sobre os povos inferiores” (p. 38). Não dependia da verdade, mas da união mística do líder com o seu povo eleito, do desejo deste de deixar-se levar pelos interesses do grupo. Não havia necessidade de um programa imutável ou de uma doutrina. Interessava era que os fiéis amassem, e não que concordassem intelectualmente com o regime. No entanto, não se deve deixar de lado suas raízes ideológicas. Os intelectuais dos primeiros tempos possibilitaram imaginar o fascismo, pondo em marcha a idéia de que não era somente a esquerda que podia ajudar os necessitados.
Paxton afirma, por fim, que as definições são limitantes, e é por essa razão que deixa de lado, pelo menos inicialmente, o objetivo de definir. Sua estratégia é observar a trajetória como uma série de processos. Em face dos diferentes fascismos que ocorreram, em razão dos particularismos culturais de cada nação, e da dificuldade de defini-los, apresentam-se três reações ao termo fascismo. Alguns acadêmicos negam seu significado, defendendo cada um como fenômeno separado. Outros aceitam sua variedade, compilando-a em suas múltiplas formas. O terceiro enfoque seria o de estabelecer um “tipo ideal”. Segundo o autor, os três tipos são inadequados, por hora, para definir a nova política que emergiu no início do século XX. Assim, propõe estudar o fascismo em um ciclo de cinco estágios (criação dos movimentos, enraizamento no sistema político, tomada do poder, exercício do poder e escolha pela radicalização ou pela entropia), que permitirão examinar os movimentos e regimes em seus diferentes estágios de evolução.
domingo, 23 de março de 2008
Resumo Texto nº1
O
Foi dessa
Foi
Teixeira
1. O antiliberalismo e antiparlamentarismo
O
A
2. O
O
O
Do
3.
A
O
Regulamentação das
4. A
Ao
O
O
O