quinta-feira, 15 de maio de 2008

Resumo Texto nº6

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Capítulo 4: p.106-141.

Segundo Bauman, é impossível continuarmos a “fingir que temos pleno alcance do funcionamento de nossas instituições sociais, estruturas burocráticas e tecnologia” (p.106) após os acontecimentos de Auschwitz. Apesar de a vida estar melhorando e as instituições parecerem estáveis, a possibilidade do Holocausto ainda não foi eliminada. Em 1941 também, não se esperava o Holocausto, mas depois de um ano, e para a incredulidade de todos, o inimaginável ocorreu. A diferença entre 1941 e hoje é que sabemos que o “inimaginável deve ser imaginado” (p. 108).

O Problema
O Holocausto não deve ser visto somente como um assunto de interesse acadêmico. Primeiro porque, ainda que mudou o curso da história, não mudou nas mesmas proporções nossa consciência de civilização moderna, o que significa que podemos ainda estar despreparados para reconhecer os sinais de alerta. Ademais, parece que as condições que originaram o Holocausto ainda estão presentes, ainda mais se pensarmos na falta de limite ético-moral do Estado moderno.
A principal causa de preocupação é o fato de que foi a própria civilização moderna e suas conquistas que propiciaram o Holocausto, e, mais assustadoramente, as redes de controle e equilíbrio que o processo civilizador construiu, muito hábeis em promover um senso de segurança, se mostraram ineficazes em evitá-lo.

Genocídio Adicional
O assassinato em massa não é uma invenção moderna e, portanto, a modernidade, mesmo que trouxesse em seu projeto um fim à desumanidade do homem, não é responsável pelo Holocausto. No entanto, a civilização moderna teve um papel ativo em sua extensão, o que, em outras palavras, significa que o Holocausto foi tanto um produto como um fracasso da modernidade. O assassinato em massa foi singular no sentido de sua escala, pois por mais que os assassinatos sejam baseados na fúria e na raiva, e por isso mesmo incapazes de continuarem por muito tempo, a quantidade de pessoas mortas e em tão pequeno espaço de tempo foi única. O projeto levado a cabo por Hitler pressupõe nenhuma espontaneidade e cálculo racional e meticuloso. O extermínio do inimigo passa de um fim a um meio para se chegar ao fim em si, sendo este a construção de uma sociedade melhor. Nesse sentido, nos genocídios modernos, a sociedade deve ser sempre pensada a partir de um plano com bases científicas e com ideais de aspiração a uma beleza superior. A nova sociedade deve ser ordeira, racional, absolutamente controlada e perfeita. É só no momento em que o impulso em direção a esse mundo artificialmente harmonioso não é mais controlado que o Holocausto se torna um subproduto da modernidade.

Peculiaridade do genocídio moderno
O Holocausto é único devido a duas razões: porque é único em relação a outros casos de genocídio e porque só é possível quando se conjugam certos fatores comuns próprios da sociedade moderna. Ao mesmo tempo em que é normal, é também um evento singular. Dentre os fatores que contribuíram para a produção do Holocausto se encontram o anti-semitismo radical nazista, a transformação desse fator na política de um Estado centralizado, a existência de um aparato burocrático eficiente e a não-interferência da população. A conduta humana, ao longo do processo civilizador, pode conceber uma escala de desumanidade e destruição inconcebível enquanto os homens eram guiados apenas pelas predisposições naturais. A sociedade polida, gentil, civilizada, é aquela em que a violência é removida da vida cotidiana e, assim, concentra-se em outros lugares em que é aperfeiçoada, transformando-se em técnica racional.

Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
A violência se torna mais eficiente à medida que os meios se tornam mais instrumentais e racionais, ou seja, afastados de uma avaliação moral dos fins. Tal divisão é fruto de dois processos: a meticulosa divisão do trabalho e a substituição da responsabilidade moral pela técnica, que se dão através do distanciamento do produto final criado a partir da divisão funcional do trabalho. A função, por si mesma, não tem significado, restando a “outros” a responsabilidade pelo significado. O resultado disso é a dissociação dos padrões morais e a operação burocrática.

Desumanização dos objetos burocráticos
Os objetos em questão na ação burocrática são reduzidos a um conjunto de medidas, desprovidos de qualidade, perdendo, assim, sua identidade. Quando o processo de desumanização é efetivado, aos objetos não é mais reconhecido demandas morais, levando a serem encarados como incômodos.

O papel da burocracia no Holocausto
A burocracia perde de vista o objetivo original e se concentra nos meios, os quais transformam em fins com o objetivo de criar uma ordem social melhor e mais racional.

Falência das salvaguardas modernas
A violência é vista como uma forma de se fazer a segurança, posto que ao concentrar-se às margens da sociedade moderna, armazena-se ao ponto de ficar incontrolável. Nesse sentido, a confiança nas salvaguardas é posta em jogo, e os princípios da ciência moderna assumem lugar de ideologia nas mãos do Estado. O culto da racionalidade é o único que pode substituir a religião e a ética para ordenar o comportamento humano.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Resumo Texto nº5

HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. Capítulo 5.

I
O alinhamento anômalo de Estados e movimentos contra a ideologia alemã, pilar central da aliança entre Alemanha, Itália e Japão, os ditos países do Eixo, foi uma situação que durou de 1939-1945, em outras palavras, existiu durante a ascensão e queda da Alemanha de Hitler. Enquanto o delineamento das linhas que dividiam a guerra foi deixado de lado, cada país resolvia as coisas de acordo com seus interesses (Realpolitik). Os Estados democráticos liberais, Estados vitoriosos da 1ª Guerra Mundial, evidenciavam sua incapacidade de agir contra o inimigo, em parte pela lembrança ainda recente da 1ª GM. A URSS, no entanto, não hesitou em opor-se à Alemanha nazista, o que contribuiu para um choque ainda maior quando da assinatura do pacto. É importante frisar, no entanto, que as linhas divisórias da guerra eram em função de famílias ideológicas: de um lado os descendentes do Iluminismo, e do outro seus adversários. Nesse sentido, ela foi internacional porque originou as mesmas questões na maioria dos países ocidentais, e civil, pois as linhas cortavam cada sociedade.

II
A união das forças políticas de resistência ao Eixo demorou mais de oito anos para ser alcançada, em parte pelo medo que alguns ainda conservavam da idéia do bolchevismo como inimigo primeiro. Essa demora em unir-se contra o inimigo comum explica o porquê de Stálin ter assinado o Pacto Stalin-Ribbentrop de agosto de 1939. França e Inglaterra sabiam só possuir um status quo instável, portanto não lhes era viável começar uma guerra. A solução era, em princípio, negociar com a Alemanha e fazer concessões, se necessário, nos moldes da política de “apaziguamento”. Entretanto, a negociação se mostrou impossível pelo caráter irracional e ilimitado dos objetivos políticos do inimigo, o que originou a exclusão da realpolitik como ferramenta. Ainda que os realistas políticos do apaziguamento continuassem tentando negociar, a política de Hitler após Munique impossibilitou outra saída senão uma guerra que ninguém queria. No final, foi Hitler quem mobilizou contra si as massas. Os comunistas funcionavam de forma sistemática: criaram Frentes Populares, uma aliança eleitoral e política com os democratas e liberais; foram hábeis em organizar os adversários tradicionais da direita; e mobilizaram em massa os intelectuais. O mais difícil, porém, era mobilizar os cidadãos comuns, uma vez que viam as barbaridades da Alemanha como “aberrações limitadas”, na pior das hipóteses, ou simplesmente como um país estável com um governo popular um pouco antipático.

III
A Guerra Civil Espanhola (1936-39) foi uma versão em miniatura de uma guerra européia. Foi nela que as disputas transnacionais se evidenciaram e que os dois campos de combate se definiram: democracia e revolução social contra reação inspirada pela Igreja Católica. Quando a esquerda descobre a Frente Popular do Comintern e ganha as eleições em fevereiro de 1936, a fermentação social ganha vida e a insatisfação social pode finalmente jorrar. Resultado disso foi o golpe militar de 17 de julho dado pela Falange, um pequeno movimento fascista local de generais financiado pela Itália, pela Igreja e por monarquistas. O golpe não teve êxito em todas as cidades, e enfrentou grande resistência que ocasionou uma guerra civil entre a República (governo de direito) e os generais insurgentes, cujo líder era Francisco Franco. Ao longo da guerra, o governo franquista se impôs como um Estado autoritário de partido único, a Falange Tradicionalista Espanhola. Apesar do Acordo de Não-Intervenção, Itália e Alemanha enviaram armas e homens em ajuda a Franco, enquanto que milhares de voluntários lutaram numa guerra que tomaram como própria.

IV
A Guerra Civil Espanhola antecipou as forças que destruiriam o fascismo, a aliança única de frentes nacionais para a derrota do inimigo comum e para a regeneração social (exemplo disso foi o governo de Winston Churchill, que se comprometeu com um Estado de bem-estar durante a guerra). A maioria dos governos fez um esforço intelectual para aprender o que haviam feito de errado e evitar que o erro se repetisse. E, com razão, após a vitória, todos os governos eram representativos das forças antifascistas que haviam lutado unidas. A questão central se tornaria a defesa da democracia.

V
Com a entrada dos EUA na guerra, uma aliança firmou-se entre os norte-americanos e a URSS, entre o capitalismo e o comunismo. Os movimentos de Resistência tinham pouca importância militar, restando em seu significado político e moral a sua maior força. Pendiam para a esquerda, o que justifica o aumento expressivo de votos para os partidos comunistas, corpo especialista de “revolucionários profissionais” que se dedicavam apaixonadamente às suas causas.

VII
“...para a maior parte da Ásia , África e o mundo islâmico, o fascismo, como ideologia ou como política de um Estado agressor, não era e jamais se tornou o principal e muito menos o único inimigo. Este era o ‘imperialismo’ ou o ‘colonialismo’...” (p.171). A luta contra o fascismo causou muitas contradições nesses países. O Japão, por exemplo, foi por vezes considerado um defensor dos não-brancos contra o imperialismo dos brancos; quanto aos comunistas de países como Índia e Vietnã, ora lutavam contra o imperialismo (pacto URSS-Alemanha), ora tinham que defender o comunismo em detrimento da independência de seu povo, estratégia que se mostrou bastante impopular. Já um grupo de judeus na Palestina foi capaz de negociar a libertação dos britânicos com os alemães. Tais questões não demonstram uma simpatia pelo fascismo, e sim uma tática política. Com efeito, a maioria dos movimentos de libertação pendia para a esquerda internacional.

VIII
A atração que o fascismo exerceu não ultrapassou seus limites originais à guerra. O que realmente mudou foi a suscetibilidade ao socialismo na qual grande parte da Europa se encontrava após a guerra. No entanto, não tardou muito para que a política voltasse a se desenrolar como antes: o projeto de união não havia sido feito para durar. Apesar de que quase todos agora se voltassem a uma economia administrada pelo Estado, capitalismo e comunismo estavam preparados para se enfrentar novamente.