BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Capítulo 4: p.106-141.
Segundo Bauman, é impossível continuarmos a “fingir que temos pleno alcance do funcionamento de nossas instituições sociais, estruturas burocráticas e tecnologia” (p.106) após os acontecimentos de Auschwitz. Apesar de a vida estar melhorando e as instituições parecerem estáveis, a possibilidade do Holocausto ainda não foi eliminada. Em 1941 também, não se esperava o Holocausto, mas depois de um ano, e para a incredulidade de todos, o inimaginável ocorreu. A diferença entre 1941 e hoje é que sabemos que o “inimaginável deve ser imaginado” (p. 108).
O Problema
O Holocausto não deve ser visto somente como um assunto de interesse acadêmico. Primeiro porque, ainda que mudou o curso da história, não mudou nas mesmas proporções nossa consciência de civilização moderna, o que significa que podemos ainda estar despreparados para reconhecer os sinais de alerta. Ademais, parece que as condições que originaram o Holocausto ainda estão presentes, ainda mais se pensarmos na falta de limite ético-moral do Estado moderno.
A principal causa de preocupação é o fato de que foi a própria civilização moderna e suas conquistas que propiciaram o Holocausto, e, mais assustadoramente, as redes de controle e equilíbrio que o processo civilizador construiu, muito hábeis em promover um senso de segurança, se mostraram ineficazes em evitá-lo.
Genocídio Adicional
O assassinato em massa não é uma invenção moderna e, portanto, a modernidade, mesmo que trouxesse em seu projeto um fim à desumanidade do homem, não é responsável pelo Holocausto. No entanto, a civilização moderna teve um papel ativo em sua extensão, o que, em outras palavras, significa que o Holocausto foi tanto um produto como um fracasso da modernidade. O assassinato em massa foi singular no sentido de sua escala, pois por mais que os assassinatos sejam baseados na fúria e na raiva, e por isso mesmo incapazes de continuarem por muito tempo, a quantidade de pessoas mortas e em tão pequeno espaço de tempo foi única. O projeto levado a cabo por Hitler pressupõe nenhuma espontaneidade e cálculo racional e meticuloso. O extermínio do inimigo passa de um fim a um meio para se chegar ao fim em si, sendo este a construção de uma sociedade melhor. Nesse sentido, nos genocídios modernos, a sociedade deve ser sempre pensada a partir de um plano com bases científicas e com ideais de aspiração a uma beleza superior. A nova sociedade deve ser ordeira, racional, absolutamente controlada e perfeita. É só no momento em que o impulso em direção a esse mundo artificialmente harmonioso não é mais controlado que o Holocausto se torna um subproduto da modernidade.
Peculiaridade do genocídio moderno
O Holocausto é único devido a duas razões: porque é único em relação a outros casos de genocídio e porque só é possível quando se conjugam certos fatores comuns próprios da sociedade moderna. Ao mesmo tempo em que é normal, é também um evento singular. Dentre os fatores que contribuíram para a produção do Holocausto se encontram o anti-semitismo radical nazista, a transformação desse fator na política de um Estado centralizado, a existência de um aparato burocrático eficiente e a não-interferência da população. A conduta humana, ao longo do processo civilizador, pode conceber uma escala de desumanidade e destruição inconcebível enquanto os homens eram guiados apenas pelas predisposições naturais. A sociedade polida, gentil, civilizada, é aquela em que a violência é removida da vida cotidiana e, assim, concentra-se em outros lugares em que é aperfeiçoada, transformando-se em técnica racional.
Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
A violência se torna mais eficiente à medida que os meios se tornam mais instrumentais e racionais, ou seja, afastados de uma avaliação moral dos fins. Tal divisão é fruto de dois processos: a meticulosa divisão do trabalho e a substituição da responsabilidade moral pela técnica, que se dão através do distanciamento do produto final criado a partir da divisão funcional do trabalho. A função, por si mesma, não tem significado, restando a “outros” a responsabilidade pelo significado. O resultado disso é a dissociação dos padrões morais e a operação burocrática.
Desumanização dos objetos burocráticos
Os objetos em questão na ação burocrática são reduzidos a um conjunto de medidas, desprovidos de qualidade, perdendo, assim, sua identidade. Quando o processo de desumanização é efetivado, aos objetos não é mais reconhecido demandas morais, levando a serem encarados como incômodos.
O papel da burocracia no Holocausto
A burocracia perde de vista o objetivo original e se concentra nos meios, os quais transformam em fins com o objetivo de criar uma ordem social melhor e mais racional.
Falência das salvaguardas modernas
A violência é vista como uma forma de se fazer a segurança, posto que ao concentrar-se às margens da sociedade moderna, armazena-se ao ponto de ficar incontrolável. Nesse sentido, a confiança nas salvaguardas é posta em jogo, e os princípios da ciência moderna assumem lugar de ideologia nas mãos do Estado. O culto da racionalidade é o único que pode substituir a religião e a ética para ordenar o comportamento humano.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
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