CLARKE-GOODRICK, Nicholas. Sol Negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. Conclusão (p. 397-401).
Os cultos arianos e o nazismo esotérico têm como base o conceito de raça. Os judeus representam para o neonazismo americano o fermento da sociedade liberal, enquanto que na década de 1950, o “inimigo” era a oposição aos direitos civis para os negros. Já para os grupos neonazistas britânicos, a crescente imigração de pessoas de cor é seu bode expiatório. A reintrodução da categoria de raça como fator de identificação foi permitida por vários motivos. Nos EUA, as políticas adotadas pelo governo para lidar com a emergência do poder negro frente ao domínio racial branco, como por exemplo, programas de oportunidades iguais, foi o grande estopim.
Os grupos arianos e neonazistas necessitam de mitologias para negar o domínio branco sobre os demais. A adoção da cronologia hindu por figuras como Julius Evola, Savitri Devi e Miguel Serrano, a qual traz a promessa de uma era dourada após o grande declínio dos homens, faz parte desse movimento. É também nesse contexto que se insere a filosofia mítica que afirma que as raças européias estão incapacitas pelas influências judaicas de criar um poderoso Império mundial.
As forças de globalização e de imigração, o multiculturalismo e a erosão do conceito de soberania nacional desempenham forte papel no ideário mítico dos neonazistas. A partir da década de 1980, a extrema-direita renova seu vigor nos EUA e na Grã-Bretanha, que pode ser visto através das gangues racistas, da white music e da criação de religiões populares de identidade branca. Esses fenômenos podem ser considerados sintomas da desestabilização das democracias ocidentais no caminho de um novo movimento de extrema-direita melhor consolidado e preparado.
sábado, 21 de junho de 2008
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Resenha Os afogados e os sobreviventes

LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes: os delitos, os castigos, as penas, as impunidades. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1990.
Nascido em Turim, na Itália, em 1919, Primo Levi formou-se em Química quando ainda era permitido aos judeus freqüentar as universidades. Em 1944, foi deportado para Auschwitz, só sendo libertado de lá no final da guerra. Morreu no ano de 1987, ao sofrer um acidente em sua própria casa, fato que criou grande polêmica em torno de sua morte, que alguns pensam ter sido suicídio.
Autor de É isto um homem (1947), primeiro livro a relatar o cotidiano do mundo concentracionário de Auschwitz, Levi faz nesse livro um balanço de suas memórias, particularmente perceptível no último capítulo, alertando principalmente as novas gerações do perigo que a humanidade ainda corre. Ao longo da obra ainda desconstrói várias visões comuns que se tem sobre os Lager, os campos de concentração e extermínio, que, no entanto, não ocorriam.
Esse balanço embebido de memória se justifica pelo fato de que “Em nenhum outro tempo e lugar se assistiu a um fenômeno tão imprevisto e tão complexo: jamais tantas vidas humanas foram eliminadas num tempo tão breve, e com uma tão lúcida combinação de engenho tecnológico, de fanatismo e de crueldade” (p. 7).
Ainda que a memória seja a matéria prime de suas reflexões, Levi aponta que ela pode falhar. A fabricação de uma realidade conveniente tanto por parte dos torturadores quanto dos sobreviventes é um fenômeno no qual a distinção entre verdadeiro e falso vai se perdendo. No primeiro caso, o processo leva à diminuição da culpa; já no caso dos inocentes, muitas vezes à memória pessoal vai se adicionando fragmentos de histórias de outros que também sobreviveram; quanto aos parentes, esse fenômeno se traduz na invenção de uma verdade consolatória.
Para o autor, o homem é compelido a simplificar tudo entre dois pólos diametralmente opostos: “nós” e “eles”, o bem e o mal. Mas logo ao se chegar ao Lager, vê-se que esse tipo de bipartição não existe apresentada nessa forma. O choque e a surpresa advêm da existência do que o autor descreve como uma zona cinzenta, comportada por pessoas que transitam entre a fronteira inimigo e amigo.
A existência dessas figuras fantasmas, os prisioneiros privilegiados, os pridurki, e os Kapos, prisioneiros chefes que atuavam em diversas áreas, eram sistemas de reproduzir a hierarquia do regime dentro do cativeiro. Em outras palavras, de trazer para a esfera dos inocentes um pouco da culpa dos “outros”; o trabalho sujo era delegado aos prisioneiros para sua própria degradação moral. E como estes iriam recusar, se aquilo representava a sobrevivência nem que fosse por algumas semanas a mais?
Primo critica o estereótipo do fim da guerra veiculado em filmes e romances, nos quais se retrata a felicidade de todos pelo fim do sofrimento, o reencontro com os parentes e amigos. Contudo, e ao contrário do que se poderia imaginar, esse cenário de libertação era marcado pela emergência de sentimentos como a angústia e a vergonha.
Angústia pela família perdida, pelo cansaço que parecia haver consumido toda a vida e alegria. Mas também vergonha pelo sentimento de culpa; mesmo que no plano racional não seja justificável, no plano moral as coisas mudam de proporção. O mal-estar de não ter feito nada, de não ter resistido, de ter esquecido a solidariedade humana, por não ter socorrido seus iguais pode seguir o indivíduo até a morte.
Na concepção do autor, o termo “incomunicabilidade” não existe. Sempre se pode, e se deve comunicar. No universo em questão, “Saber ou não o alemão era um divisor de águas” (p. 53) e, sendo assim, os que não entendiam a língua se viam numa situação pior dos que a entendiam. A língua alemã ia pouco a pouco se transformando em golpes e tapas, atos próprios para se lidar com os animais.
O homem intelectual, no sentido de homem culto das ciências, e não só da filosofia e da política, estava numa situação pior que o inculto. Faltava-lhe força física e experiência nos trabalhos manuais, os mais requisitados nos campos. No caso de Primo, o ofício de químico o ajudou a sobreviver posto que seus serviços foram colocados à disposição de uma indústria. Da mesma forma que um trabalho especializado, a cultura, nesse contexto, podia servir de ligação com o passado nas horas mais devastadoras. O universo dos sobreviventes é amplamente marcado por algumas perguntas, normalmente feitas por jovens, quase acusatórias algumas vezes, que giram em torno de dois temas: a fuga e a rebelião. Por que não fugiram? Por que não se rebelaram? Por que não fugiram antes da captura? As respostas a tais indagações são várias, mas nem sempre entendidas, pois partem de visões de mundo diferentes, destinadas a ter seu grau de julgamento aumentado de acordo com o tempo.
No oitavo capítulo, Cartas de alemães, faz um balanço das cartas que recebeu após a publicação da tradução em alemão de seu livro É isto um homem. As quarenta cartas que apresenta tentam, em sua maioria, responder a questão: Seria possível compreender os alemães? As respostas demonstram certa vergonha por parte dos alemães em relembrar seu passado recente, o qual muitos nem viveram nem viram, mas ainda assim sentem o peso da História cair sobre si.
A experiência dos sobreviventes é decerto estranha às novas gerações, e o será mais e mais à medida que os anos se passam, em parte porque os problemas de hoje são diferentes, a configuração do mundo mudou. Mas os sinais precursores continuam a existir: violência, intolerância, fanatismos religiosos e políticos, conflitos raciais.
É essencial lembrarmos que os culpados não eram pessoas desequilibradas mentais, mas pessoas que receberam uma educação ruim, uma espécie de lavagem moral. Desse modo, Primo Levi atenta para que a responsabilidade recai sobre todos os alemães, que por preguiça mental ou outros motivos, aceitaram as belas palavras de Hitler e de seu Partido. O alerta, na verdade, se estende a todos os indivíduos. Suas memórias estão aí para relembrar que o Holocausto realmente existiu, e que é passível de acontecer de novo.
Resenha O Triunfo da Vontade

O TRIUNFO DA VONTADE. Direção: Leni Riefenstahl, 1935.
A diretora do filme, Leni Riefenstahl (1902-2003), era grande fã das artes e da dança quando jovem. Trabalhou como atriz, diretora e produtora , ficando reconhecida pelo sucesso com filmes encomendados pelo Partido, como Olympia, fruto de suas filmagens durante as Olimpíadas de 1936. O prestígio como diretora se traduziu na medalha de ouro que ganhou na Feira de Paris, em 1937
Sua carreira como cineasta foi destruída com o fim da guerra, quando foi acusada de colaborar com o regime, motivo pelo qual suas obras passaram a ser encaradas como mera propaganda. No entanto, Leni não abandonou as artes. Tornou-se fotógrafa e conquistou grande prestígio com trabalhos realizados na África.
O objetivo do documentário era registrar o 6º Congresso do Partido Nacional-Socialista, realizado a 5 de setembro de 1934, em Nuremberg. O congresso anual foi dedicado à Field Marshall, primeiro soldado alemão morto na 1ª Guerra Mundial, e a todos os camaradas que também se foram lutando pelo seu país.
Produzido por ordem do Führer, o documentário mostra os discursos de grandes filiados do Partido, entre eles Goebbels e Rosenberg. Hitler é sinônimo de paz e vitória, logo se diz num dos primeiros pronunciamentos, e a “verdade é o pilar em que o poder da imprensa se apóia”, sendo esta responsável por relatar a realidade da Alemanha.
Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda do Reich, ajudou a idealizar a imagem que deveria ser passada do regime para o povo alemão, consolidando a doutrina nazista. Também controlava e censurava o conteúdo que era divulgado em jornais, filmes, livros e outros meios de comunicação.
Foi ele o célebre autor da frase “Se você contra uma mentira grande o bastante e continua repetindo-a, as pessoas vão começar a acreditar nela. A mentira só poderá ser mantida enquanto o Estado puder proteger as pessoas das conseqüências políticas, econômicas e/ou militares da mentira” . Isso é justamente o que deveria ser o objetivo da propaganda nazista perante seu povo.
As principais cenas escolhidas por Leni mostram a ovação das pessoas diante da passagem de Hitler, a rotina dos valorosos soldados da Juventude Hitlerista, paradas militares, discursos, encontros do Führer com camponeses e suas tradições. Enfim, o foco é exibir as nobres ações do líder e seus “ajudantes” que iriam transformar o país.
O documentário está povoado de simbolismos . Além de Nuremberg, a velha cidade imperial, ser um local histórico para Hitler, o título faz menção a uma idéia de Nietzsche, o qual pensava que se um ser fosse possuído pela vontade, seria capaz de se tornar inalcançável e inquebrável. Em suma, o título foi escolhido propositalmente para designar o momento em que Hitler se sentia em seu ápice, praticamente invencível.
Os méritos estéticos de Riefenstahl não ficam para trás de sua importância histórica. Leni usou várias técnicas cinematográficas para destacar a figura de Hitler quando este discursava ou passava num desfile para a população.
Sendo a película de 1935, ainda não se pode ver o que seria veiculado durante a massiva campanha contra os judeus, e o que era considerado oportuno mostrar aos alemães, o que decerto não seria muito. Mas é consistente no que diz respeito aos atos do Partido na época. Serve-nos de testemunho ao pensamento que se queria veicular naquele momento de sonhos grandiosos para a nova Alemanha. Faz sentir como se fôssemos um alemão médio, vendo as proezas de Hitler no início de seus tempos.
Resumo Texto nº9
VIZENTINI, Paulo F. “O ressurgimento da extrema-direita e do neonazismo: a dimensão histórica e conceitual”. In.: Neonazismo, negacionismo e extremismo político. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 2000. p. 17-46.
O autor busca abordar a dimensão histórica dos problemas internacionais relacionados ao ressurgimento do neonazismo, da extrema-direita, do extremismo político e das gangs, fenômenos que considera associados, porém diferentes. Além disso, procura diferenciar a existência de um partido político, por um lado, e um eleitorado, por outro.
Segundo Vizentini, o grande perigo que é representado pela explosão desses movimentos na Europa em finais dos anos 1980 se traduz no fato de que a História mostrou que isso é só parte de um fenômeno mais complexo.
O nazifascismo é um movimento ligado à crise liberal e à noção de progresso que vigorava nos anos 1920. “Mas, uma vez que o progresso, o crescimento industrial e a sociedade moderna se afirmaram, eles permaneceram como filosofias marginais e exóticas” (p. 2). Outro fator importante para a ascensão do fascismo foi a conivência das democracias ocidentais, pois inicialmente pensavam que esses movimentos funcionariam como um freio ao avanço socialista.
O fascismo, na verdade, não foi destruído completamente em 1945, tanto que países como Espanha, Portugal e Grécia continuaram com regimes de perfil semelhante no poder. Ademais, com a emergência da Guerra Fria, o espectro político dos países do bloco ocidental teve que ser reconstruído, e para tanto era necessária a criação de formações de centro-direita que vinham da oposição ao fascismo.
Deveriam também reconstruir a economia dos países desse bloco. Nesse momento, o Plano Marshall desenvolveu papel decisivo no tom dos julgamentos, até que os que apoiaram financeiramente o regime acabassem escapando de uma penalização mais dura.
Muitos desses colaboracionistas se esconderam na bandeira da solidariedade anticomunista. Personalidades nazistas foram úteis pelo seu conhecimento técnico na Guerra Fria. O fascismo sobreviveu fragmentado por anos, desempenhando algumas tarefas complementares, como o ocorrido com a organização paramilitar Gladio.
Ao decorrer dos ditos “anos dourados”, de grande prosperidade, a sociedade de consumo experimentou uma acomodação política. Os partidos de extrema-direita da época viviam num estado semi-vegetativo, compostos em sua maioria por jovens entre 16 e 24 anos que não haviam vivido a desnazificação.
O problema vai emergir quando, nos anos 70, com a crise do petróleo. Revoluções socialistas eclodem no Terceiro Mundo, preocupando a classe média européia. Esse fator foi agravado pela estagnação industrial e a regressão demográfica que a Europa estava enfrentando, que causou por sua vez a “importação” mão-de-obra mais barata num movimento Sul-Norte.
Os fatores apontados acima em conjunto vão gerar um desencanto com o mundo, caldo cultural ótimo para o recrutamento e reorganização dos grupos fascistas. Tais tensões, já nos anos 80, vão crescer em tal medida que encontrarão como escape a xenofobia e o racismo, calcados na figura do estrangeiro “causador de todos os males”.
O ressurgimento da extrema-direita é baseado num “hiato de pânico e desesperança” (p. 11) que advém do colapso da ordem econômica e social. O medo, a ignorância e o desencanto devem ser combatidos a fim de se evitar uma nova barbárie de alcance mundial.
O autor busca abordar a dimensão histórica dos problemas internacionais relacionados ao ressurgimento do neonazismo, da extrema-direita, do extremismo político e das gangs, fenômenos que considera associados, porém diferentes. Além disso, procura diferenciar a existência de um partido político, por um lado, e um eleitorado, por outro.
Segundo Vizentini, o grande perigo que é representado pela explosão desses movimentos na Europa em finais dos anos 1980 se traduz no fato de que a História mostrou que isso é só parte de um fenômeno mais complexo.
O nazifascismo é um movimento ligado à crise liberal e à noção de progresso que vigorava nos anos 1920. “Mas, uma vez que o progresso, o crescimento industrial e a sociedade moderna se afirmaram, eles permaneceram como filosofias marginais e exóticas” (p. 2). Outro fator importante para a ascensão do fascismo foi a conivência das democracias ocidentais, pois inicialmente pensavam que esses movimentos funcionariam como um freio ao avanço socialista.
O fascismo, na verdade, não foi destruído completamente em 1945, tanto que países como Espanha, Portugal e Grécia continuaram com regimes de perfil semelhante no poder. Ademais, com a emergência da Guerra Fria, o espectro político dos países do bloco ocidental teve que ser reconstruído, e para tanto era necessária a criação de formações de centro-direita que vinham da oposição ao fascismo.
Deveriam também reconstruir a economia dos países desse bloco. Nesse momento, o Plano Marshall desenvolveu papel decisivo no tom dos julgamentos, até que os que apoiaram financeiramente o regime acabassem escapando de uma penalização mais dura.
Muitos desses colaboracionistas se esconderam na bandeira da solidariedade anticomunista. Personalidades nazistas foram úteis pelo seu conhecimento técnico na Guerra Fria. O fascismo sobreviveu fragmentado por anos, desempenhando algumas tarefas complementares, como o ocorrido com a organização paramilitar Gladio.
Ao decorrer dos ditos “anos dourados”, de grande prosperidade, a sociedade de consumo experimentou uma acomodação política. Os partidos de extrema-direita da época viviam num estado semi-vegetativo, compostos em sua maioria por jovens entre 16 e 24 anos que não haviam vivido a desnazificação.
O problema vai emergir quando, nos anos 70, com a crise do petróleo. Revoluções socialistas eclodem no Terceiro Mundo, preocupando a classe média européia. Esse fator foi agravado pela estagnação industrial e a regressão demográfica que a Europa estava enfrentando, que causou por sua vez a “importação” mão-de-obra mais barata num movimento Sul-Norte.
Os fatores apontados acima em conjunto vão gerar um desencanto com o mundo, caldo cultural ótimo para o recrutamento e reorganização dos grupos fascistas. Tais tensões, já nos anos 80, vão crescer em tal medida que encontrarão como escape a xenofobia e o racismo, calcados na figura do estrangeiro “causador de todos os males”.
O ressurgimento da extrema-direita é baseado num “hiato de pânico e desesperança” (p. 11) que advém do colapso da ordem econômica e social. O medo, a ignorância e o desencanto devem ser combatidos a fim de se evitar uma nova barbárie de alcance mundial.
domingo, 1 de junho de 2008
Resenha Arquitetura da Destruição

ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO. Direção: Peter Cohen, 1992.
Quando jovem, Adolf Hitler gostaria de ter entrar para a Academia de Artes de Viena. Autodenominava-se um artista, e não um político, e imaginava que, assim que a guerra acabasse, se voltaria à carreira de artista. Seu sonho, na verdade, era ser arquiteto, coisa que de alguma forma logrou conquistar.
Esse é exatamente o ponto central do filme. Grande admirador de Richard Wagner (1813-1883), compositor alemão que serviu de inspiração para alguns dos ideais nazistas de “pureza racial”, Hitler partilhava deste a idéia de que a arte serviria como base para uma nova e melhor civilização. Criou os uniformes e bandeiras nazistas, além de ter projetado alguns edifícios da nova Alemanha.
Nesse sentido, vida e arte estavam entrelaçadas no novo Estado, sendo a última considerada uma representação da raça. Com a fundação da Sociedade Nacional-Socialista de Cultura Alemã, que em 1938 passou a ser chamada de Defesa da Cultura Alemã, quadros de inspiração clássica eram escolhidos para representar o ideal estético de beleza e superioridade racial, frente às “obras degeneradas” dos bolcheviques.
Albert Speer foi o encarregado por Hitler da estruturação da nova Alemanha, cujo pilar era o erguimento de novas cidades a partir de uma arquitetura que acompanhasse a grandeza da nação. Dessa forma, essas construções ostentavam proporções imensas, abrangendo mais de quarenta cidades, e eram fortemente inspiradas na Antigüidade, principalmente em Atenas, Esparta e a República Romana.
A visita a Paris que o Führer fez logo após a ocupação alemã em 1940 o ajudou a idealizar a nova Berlim, a nova capital do mundo que deixaria a capital francesa à sombra de sua beleza e grandiosidade. O Arco do Triunfo alemão seria duas vezes maior que o francês, o Centro Cultural dezessete vezes maior que a Catedral de São Pedro, e o Congresso, por sua vez, foi inspirado no Coliseu.
O objetivo da guerra também era inspirado na Antigüidade: não bastava somente obter a vitória, mas também se fazia necessário aniquilar o povo e a cidade inimiga. Os prisioneiros de guerra, da mesma forma que os antigos bárbaros, eram recrutados para construir as novas cidades e trabalhar nas indústrias alemãs.
Hereditariedade, teoria racial, eugenia, limpeza racial e um vago princípio de beleza se mesclam num conceito de saúde a ser alcançado através da ciência. Essa forma de encarar o mundo, a qual pode ser ilustrada pelo fato de que 45% dos médicos alemães pertenciam ao Partido Nacional-Socialista, estava a um pequeno passo da política de extermínio levada a cabo pelo regime.
A visão de mundo nazista, com a ajuda da propaganda de Goebbels, levava a crer que era essencial a exclusão de judeus e outras categorias que fossem consideradas culpadas pela decadência alemã. A sociedade em geral era levada a acreditar que eram piolhos, bactérias, insetos, vermes e, portanto, deveriam ser exterminados.
A partir de agosto de 1941, a solução final dos judeus começou a movimentar-se com toda força total. Câmaras de gás como as usadas para matar os doentes mentais no Projeto T4 foram instaladas em Treblinka e Sobibor. No entanto, Auschwitz foi o primeiro lugar escolhido para se testar o verdadeiro extermínio em massa.
Os testes conduzidos com o Zyklon B, inseticida à base de cianeto usado para exterminar pragas, fizeram-no passar a ser utilizado para pessoas. Unia numa só fórmula as idéias de bem-estar, conservação e limpeza num conceito mais amplo de saúde. O genocídio, então, passou a ser encarado como uma medida de higiene imperiosa.
Quando alguns artistas alemães são contratados com o objetivo de retratar a frente de guerra com os russos, e acabam capturando em seus pincéis a derrota alemã, a guerra inútil contra os aliados se evidencia. No entanto, quanto maior era a evidência de que essa guerra era improdutiva, maior era a perseguição e o extermínio de judeus.
O que aconteceu na Alemanha nazista talvez tenha sido somente uma possível visão do futuro. “Da derrota, nova semente brotará”; Hitler conseguiu afinal concretizar seu sonho. Sua morte inspirou os que acreditavam em seus ideais e ainda inspirará as gerações a vir. O destino, com efeito, é a forma mais representativa da arte.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Resumo Texto nº6
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Capítulo 4: p.106-141.
Segundo Bauman, é impossível continuarmos a “fingir que temos pleno alcance do funcionamento de nossas instituições sociais, estruturas burocráticas e tecnologia” (p.106) após os acontecimentos de Auschwitz. Apesar de a vida estar melhorando e as instituições parecerem estáveis, a possibilidade do Holocausto ainda não foi eliminada. Em 1941 também, não se esperava o Holocausto, mas depois de um ano, e para a incredulidade de todos, o inimaginável ocorreu. A diferença entre 1941 e hoje é que sabemos que o “inimaginável deve ser imaginado” (p. 108).
O Problema
O Holocausto não deve ser visto somente como um assunto de interesse acadêmico. Primeiro porque, ainda que mudou o curso da história, não mudou nas mesmas proporções nossa consciência de civilização moderna, o que significa que podemos ainda estar despreparados para reconhecer os sinais de alerta. Ademais, parece que as condições que originaram o Holocausto ainda estão presentes, ainda mais se pensarmos na falta de limite ético-moral do Estado moderno.
A principal causa de preocupação é o fato de que foi a própria civilização moderna e suas conquistas que propiciaram o Holocausto, e, mais assustadoramente, as redes de controle e equilíbrio que o processo civilizador construiu, muito hábeis em promover um senso de segurança, se mostraram ineficazes em evitá-lo.
Genocídio Adicional
O assassinato em massa não é uma invenção moderna e, portanto, a modernidade, mesmo que trouxesse em seu projeto um fim à desumanidade do homem, não é responsável pelo Holocausto. No entanto, a civilização moderna teve um papel ativo em sua extensão, o que, em outras palavras, significa que o Holocausto foi tanto um produto como um fracasso da modernidade. O assassinato em massa foi singular no sentido de sua escala, pois por mais que os assassinatos sejam baseados na fúria e na raiva, e por isso mesmo incapazes de continuarem por muito tempo, a quantidade de pessoas mortas e em tão pequeno espaço de tempo foi única. O projeto levado a cabo por Hitler pressupõe nenhuma espontaneidade e cálculo racional e meticuloso. O extermínio do inimigo passa de um fim a um meio para se chegar ao fim em si, sendo este a construção de uma sociedade melhor. Nesse sentido, nos genocídios modernos, a sociedade deve ser sempre pensada a partir de um plano com bases científicas e com ideais de aspiração a uma beleza superior. A nova sociedade deve ser ordeira, racional, absolutamente controlada e perfeita. É só no momento em que o impulso em direção a esse mundo artificialmente harmonioso não é mais controlado que o Holocausto se torna um subproduto da modernidade.
Peculiaridade do genocídio moderno
O Holocausto é único devido a duas razões: porque é único em relação a outros casos de genocídio e porque só é possível quando se conjugam certos fatores comuns próprios da sociedade moderna. Ao mesmo tempo em que é normal, é também um evento singular. Dentre os fatores que contribuíram para a produção do Holocausto se encontram o anti-semitismo radical nazista, a transformação desse fator na política de um Estado centralizado, a existência de um aparato burocrático eficiente e a não-interferência da população. A conduta humana, ao longo do processo civilizador, pode conceber uma escala de desumanidade e destruição inconcebível enquanto os homens eram guiados apenas pelas predisposições naturais. A sociedade polida, gentil, civilizada, é aquela em que a violência é removida da vida cotidiana e, assim, concentra-se em outros lugares em que é aperfeiçoada, transformando-se em técnica racional.
Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
A violência se torna mais eficiente à medida que os meios se tornam mais instrumentais e racionais, ou seja, afastados de uma avaliação moral dos fins. Tal divisão é fruto de dois processos: a meticulosa divisão do trabalho e a substituição da responsabilidade moral pela técnica, que se dão através do distanciamento do produto final criado a partir da divisão funcional do trabalho. A função, por si mesma, não tem significado, restando a “outros” a responsabilidade pelo significado. O resultado disso é a dissociação dos padrões morais e a operação burocrática.
Desumanização dos objetos burocráticos
Os objetos em questão na ação burocrática são reduzidos a um conjunto de medidas, desprovidos de qualidade, perdendo, assim, sua identidade. Quando o processo de desumanização é efetivado, aos objetos não é mais reconhecido demandas morais, levando a serem encarados como incômodos.
O papel da burocracia no Holocausto
A burocracia perde de vista o objetivo original e se concentra nos meios, os quais transformam em fins com o objetivo de criar uma ordem social melhor e mais racional.
Falência das salvaguardas modernas
A violência é vista como uma forma de se fazer a segurança, posto que ao concentrar-se às margens da sociedade moderna, armazena-se ao ponto de ficar incontrolável. Nesse sentido, a confiança nas salvaguardas é posta em jogo, e os princípios da ciência moderna assumem lugar de ideologia nas mãos do Estado. O culto da racionalidade é o único que pode substituir a religião e a ética para ordenar o comportamento humano.
Segundo Bauman, é impossível continuarmos a “fingir que temos pleno alcance do funcionamento de nossas instituições sociais, estruturas burocráticas e tecnologia” (p.106) após os acontecimentos de Auschwitz. Apesar de a vida estar melhorando e as instituições parecerem estáveis, a possibilidade do Holocausto ainda não foi eliminada. Em 1941 também, não se esperava o Holocausto, mas depois de um ano, e para a incredulidade de todos, o inimaginável ocorreu. A diferença entre 1941 e hoje é que sabemos que o “inimaginável deve ser imaginado” (p. 108).
O Problema
O Holocausto não deve ser visto somente como um assunto de interesse acadêmico. Primeiro porque, ainda que mudou o curso da história, não mudou nas mesmas proporções nossa consciência de civilização moderna, o que significa que podemos ainda estar despreparados para reconhecer os sinais de alerta. Ademais, parece que as condições que originaram o Holocausto ainda estão presentes, ainda mais se pensarmos na falta de limite ético-moral do Estado moderno.
A principal causa de preocupação é o fato de que foi a própria civilização moderna e suas conquistas que propiciaram o Holocausto, e, mais assustadoramente, as redes de controle e equilíbrio que o processo civilizador construiu, muito hábeis em promover um senso de segurança, se mostraram ineficazes em evitá-lo.
Genocídio Adicional
O assassinato em massa não é uma invenção moderna e, portanto, a modernidade, mesmo que trouxesse em seu projeto um fim à desumanidade do homem, não é responsável pelo Holocausto. No entanto, a civilização moderna teve um papel ativo em sua extensão, o que, em outras palavras, significa que o Holocausto foi tanto um produto como um fracasso da modernidade. O assassinato em massa foi singular no sentido de sua escala, pois por mais que os assassinatos sejam baseados na fúria e na raiva, e por isso mesmo incapazes de continuarem por muito tempo, a quantidade de pessoas mortas e em tão pequeno espaço de tempo foi única. O projeto levado a cabo por Hitler pressupõe nenhuma espontaneidade e cálculo racional e meticuloso. O extermínio do inimigo passa de um fim a um meio para se chegar ao fim em si, sendo este a construção de uma sociedade melhor. Nesse sentido, nos genocídios modernos, a sociedade deve ser sempre pensada a partir de um plano com bases científicas e com ideais de aspiração a uma beleza superior. A nova sociedade deve ser ordeira, racional, absolutamente controlada e perfeita. É só no momento em que o impulso em direção a esse mundo artificialmente harmonioso não é mais controlado que o Holocausto se torna um subproduto da modernidade.
Peculiaridade do genocídio moderno
O Holocausto é único devido a duas razões: porque é único em relação a outros casos de genocídio e porque só é possível quando se conjugam certos fatores comuns próprios da sociedade moderna. Ao mesmo tempo em que é normal, é também um evento singular. Dentre os fatores que contribuíram para a produção do Holocausto se encontram o anti-semitismo radical nazista, a transformação desse fator na política de um Estado centralizado, a existência de um aparato burocrático eficiente e a não-interferência da população. A conduta humana, ao longo do processo civilizador, pode conceber uma escala de desumanidade e destruição inconcebível enquanto os homens eram guiados apenas pelas predisposições naturais. A sociedade polida, gentil, civilizada, é aquela em que a violência é removida da vida cotidiana e, assim, concentra-se em outros lugares em que é aperfeiçoada, transformando-se em técnica racional.
Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
A violência se torna mais eficiente à medida que os meios se tornam mais instrumentais e racionais, ou seja, afastados de uma avaliação moral dos fins. Tal divisão é fruto de dois processos: a meticulosa divisão do trabalho e a substituição da responsabilidade moral pela técnica, que se dão através do distanciamento do produto final criado a partir da divisão funcional do trabalho. A função, por si mesma, não tem significado, restando a “outros” a responsabilidade pelo significado. O resultado disso é a dissociação dos padrões morais e a operação burocrática.
Desumanização dos objetos burocráticos
Os objetos em questão na ação burocrática são reduzidos a um conjunto de medidas, desprovidos de qualidade, perdendo, assim, sua identidade. Quando o processo de desumanização é efetivado, aos objetos não é mais reconhecido demandas morais, levando a serem encarados como incômodos.
O papel da burocracia no Holocausto
A burocracia perde de vista o objetivo original e se concentra nos meios, os quais transformam em fins com o objetivo de criar uma ordem social melhor e mais racional.
Falência das salvaguardas modernas
A violência é vista como uma forma de se fazer a segurança, posto que ao concentrar-se às margens da sociedade moderna, armazena-se ao ponto de ficar incontrolável. Nesse sentido, a confiança nas salvaguardas é posta em jogo, e os princípios da ciência moderna assumem lugar de ideologia nas mãos do Estado. O culto da racionalidade é o único que pode substituir a religião e a ética para ordenar o comportamento humano.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Resumo Texto nº5
HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. Capítulo 5.
I
O alinhamento anômalo de Estados e movimentos contra a ideologia alemã, pilar central da aliança entre Alemanha, Itália e Japão, os ditos países do Eixo, foi uma situação que durou de 1939-1945, em outras palavras, existiu durante a ascensão e queda da Alemanha de Hitler. Enquanto o delineamento das linhas que dividiam a guerra foi deixado de lado, cada país resolvia as coisas de acordo com seus interesses (Realpolitik). Os Estados democráticos liberais, Estados vitoriosos da 1ª Guerra Mundial, evidenciavam sua incapacidade de agir contra o inimigo, em parte pela lembrança ainda recente da 1ª GM. A URSS, no entanto, não hesitou em opor-se à Alemanha nazista, o que contribuiu para um choque ainda maior quando da assinatura do pacto. É importante frisar, no entanto, que as linhas divisórias da guerra eram em função de famílias ideológicas: de um lado os descendentes do Iluminismo, e do outro seus adversários. Nesse sentido, ela foi internacional porque originou as mesmas questões na maioria dos países ocidentais, e civil, pois as linhas cortavam cada sociedade.
II
A união das forças políticas de resistência ao Eixo demorou mais de oito anos para ser alcançada, em parte pelo medo que alguns ainda conservavam da idéia do bolchevismo como inimigo primeiro. Essa demora em unir-se contra o inimigo comum explica o porquê de Stálin ter assinado o Pacto Stalin-Ribbentrop de agosto de 1939. França e Inglaterra sabiam só possuir um status quo instável, portanto não lhes era viável começar uma guerra. A solução era, em princípio, negociar com a Alemanha e fazer concessões, se necessário, nos moldes da política de “apaziguamento”. Entretanto, a negociação se mostrou impossível pelo caráter irracional e ilimitado dos objetivos políticos do inimigo, o que originou a exclusão da realpolitik como ferramenta. Ainda que os realistas políticos do apaziguamento continuassem tentando negociar, a política de Hitler após Munique impossibilitou outra saída senão uma guerra que ninguém queria. No final, foi Hitler quem mobilizou contra si as massas. Os comunistas funcionavam de forma sistemática: criaram Frentes Populares, uma aliança eleitoral e política com os democratas e liberais; foram hábeis em organizar os adversários tradicionais da direita; e mobilizaram em massa os intelectuais. O mais difícil, porém, era mobilizar os cidadãos comuns, uma vez que viam as barbaridades da Alemanha como “aberrações limitadas”, na pior das hipóteses, ou simplesmente como um país estável com um governo popular um pouco antipático.
III
A Guerra Civil Espanhola (1936-39) foi uma versão em miniatura de uma guerra européia. Foi nela que as disputas transnacionais se evidenciaram e que os dois campos de combate se definiram: democracia e revolução social contra reação inspirada pela Igreja Católica. Quando a esquerda descobre a Frente Popular do Comintern e ganha as eleições em fevereiro de 1936, a fermentação social ganha vida e a insatisfação social pode finalmente jorrar. Resultado disso foi o golpe militar de 17 de julho dado pela Falange, um pequeno movimento fascista local de generais financiado pela Itália, pela Igreja e por monarquistas. O golpe não teve êxito em todas as cidades, e enfrentou grande resistência que ocasionou uma guerra civil entre a República (governo de direito) e os generais insurgentes, cujo líder era Francisco Franco. Ao longo da guerra, o governo franquista se impôs como um Estado autoritário de partido único, a Falange Tradicionalista Espanhola. Apesar do Acordo de Não-Intervenção, Itália e Alemanha enviaram armas e homens em ajuda a Franco, enquanto que milhares de voluntários lutaram numa guerra que tomaram como própria.
IV
A Guerra Civil Espanhola antecipou as forças que destruiriam o fascismo, a aliança única de frentes nacionais para a derrota do inimigo comum e para a regeneração social (exemplo disso foi o governo de Winston Churchill, que se comprometeu com um Estado de bem-estar durante a guerra). A maioria dos governos fez um esforço intelectual para aprender o que haviam feito de errado e evitar que o erro se repetisse. E, com razão, após a vitória, todos os governos eram representativos das forças antifascistas que haviam lutado unidas. A questão central se tornaria a defesa da democracia.
V
Com a entrada dos EUA na guerra, uma aliança firmou-se entre os norte-americanos e a URSS, entre o capitalismo e o comunismo. Os movimentos de Resistência tinham pouca importância militar, restando em seu significado político e moral a sua maior força. Pendiam para a esquerda, o que justifica o aumento expressivo de votos para os partidos comunistas, corpo especialista de “revolucionários profissionais” que se dedicavam apaixonadamente às suas causas.
VII
“...para a maior parte da Ásia , África e o mundo islâmico, o fascismo, como ideologia ou como política de um Estado agressor, não era e jamais se tornou o principal e muito menos o único inimigo. Este era o ‘imperialismo’ ou o ‘colonialismo’...” (p.171). A luta contra o fascismo causou muitas contradições nesses países. O Japão, por exemplo, foi por vezes considerado um defensor dos não-brancos contra o imperialismo dos brancos; quanto aos comunistas de países como Índia e Vietnã, ora lutavam contra o imperialismo (pacto URSS-Alemanha), ora tinham que defender o comunismo em detrimento da independência de seu povo, estratégia que se mostrou bastante impopular. Já um grupo de judeus na Palestina foi capaz de negociar a libertação dos britânicos com os alemães. Tais questões não demonstram uma simpatia pelo fascismo, e sim uma tática política. Com efeito, a maioria dos movimentos de libertação pendia para a esquerda internacional.
VIII
A atração que o fascismo exerceu não ultrapassou seus limites originais à guerra. O que realmente mudou foi a suscetibilidade ao socialismo na qual grande parte da Europa se encontrava após a guerra. No entanto, não tardou muito para que a política voltasse a se desenrolar como antes: o projeto de união não havia sido feito para durar. Apesar de que quase todos agora se voltassem a uma economia administrada pelo Estado, capitalismo e comunismo estavam preparados para se enfrentar novamente.
I
O alinhamento anômalo de Estados e movimentos contra a ideologia alemã, pilar central da aliança entre Alemanha, Itália e Japão, os ditos países do Eixo, foi uma situação que durou de 1939-1945, em outras palavras, existiu durante a ascensão e queda da Alemanha de Hitler. Enquanto o delineamento das linhas que dividiam a guerra foi deixado de lado, cada país resolvia as coisas de acordo com seus interesses (Realpolitik). Os Estados democráticos liberais, Estados vitoriosos da 1ª Guerra Mundial, evidenciavam sua incapacidade de agir contra o inimigo, em parte pela lembrança ainda recente da 1ª GM. A URSS, no entanto, não hesitou em opor-se à Alemanha nazista, o que contribuiu para um choque ainda maior quando da assinatura do pacto. É importante frisar, no entanto, que as linhas divisórias da guerra eram em função de famílias ideológicas: de um lado os descendentes do Iluminismo, e do outro seus adversários. Nesse sentido, ela foi internacional porque originou as mesmas questões na maioria dos países ocidentais, e civil, pois as linhas cortavam cada sociedade.
II
A união das forças políticas de resistência ao Eixo demorou mais de oito anos para ser alcançada, em parte pelo medo que alguns ainda conservavam da idéia do bolchevismo como inimigo primeiro. Essa demora em unir-se contra o inimigo comum explica o porquê de Stálin ter assinado o Pacto Stalin-Ribbentrop de agosto de 1939. França e Inglaterra sabiam só possuir um status quo instável, portanto não lhes era viável começar uma guerra. A solução era, em princípio, negociar com a Alemanha e fazer concessões, se necessário, nos moldes da política de “apaziguamento”. Entretanto, a negociação se mostrou impossível pelo caráter irracional e ilimitado dos objetivos políticos do inimigo, o que originou a exclusão da realpolitik como ferramenta. Ainda que os realistas políticos do apaziguamento continuassem tentando negociar, a política de Hitler após Munique impossibilitou outra saída senão uma guerra que ninguém queria. No final, foi Hitler quem mobilizou contra si as massas. Os comunistas funcionavam de forma sistemática: criaram Frentes Populares, uma aliança eleitoral e política com os democratas e liberais; foram hábeis em organizar os adversários tradicionais da direita; e mobilizaram em massa os intelectuais. O mais difícil, porém, era mobilizar os cidadãos comuns, uma vez que viam as barbaridades da Alemanha como “aberrações limitadas”, na pior das hipóteses, ou simplesmente como um país estável com um governo popular um pouco antipático.
III
A Guerra Civil Espanhola (1936-39) foi uma versão em miniatura de uma guerra européia. Foi nela que as disputas transnacionais se evidenciaram e que os dois campos de combate se definiram: democracia e revolução social contra reação inspirada pela Igreja Católica. Quando a esquerda descobre a Frente Popular do Comintern e ganha as eleições em fevereiro de 1936, a fermentação social ganha vida e a insatisfação social pode finalmente jorrar. Resultado disso foi o golpe militar de 17 de julho dado pela Falange, um pequeno movimento fascista local de generais financiado pela Itália, pela Igreja e por monarquistas. O golpe não teve êxito em todas as cidades, e enfrentou grande resistência que ocasionou uma guerra civil entre a República (governo de direito) e os generais insurgentes, cujo líder era Francisco Franco. Ao longo da guerra, o governo franquista se impôs como um Estado autoritário de partido único, a Falange Tradicionalista Espanhola. Apesar do Acordo de Não-Intervenção, Itália e Alemanha enviaram armas e homens em ajuda a Franco, enquanto que milhares de voluntários lutaram numa guerra que tomaram como própria.
IV
A Guerra Civil Espanhola antecipou as forças que destruiriam o fascismo, a aliança única de frentes nacionais para a derrota do inimigo comum e para a regeneração social (exemplo disso foi o governo de Winston Churchill, que se comprometeu com um Estado de bem-estar durante a guerra). A maioria dos governos fez um esforço intelectual para aprender o que haviam feito de errado e evitar que o erro se repetisse. E, com razão, após a vitória, todos os governos eram representativos das forças antifascistas que haviam lutado unidas. A questão central se tornaria a defesa da democracia.
V
Com a entrada dos EUA na guerra, uma aliança firmou-se entre os norte-americanos e a URSS, entre o capitalismo e o comunismo. Os movimentos de Resistência tinham pouca importância militar, restando em seu significado político e moral a sua maior força. Pendiam para a esquerda, o que justifica o aumento expressivo de votos para os partidos comunistas, corpo especialista de “revolucionários profissionais” que se dedicavam apaixonadamente às suas causas.
VII
“...para a maior parte da Ásia , África e o mundo islâmico, o fascismo, como ideologia ou como política de um Estado agressor, não era e jamais se tornou o principal e muito menos o único inimigo. Este era o ‘imperialismo’ ou o ‘colonialismo’...” (p.171). A luta contra o fascismo causou muitas contradições nesses países. O Japão, por exemplo, foi por vezes considerado um defensor dos não-brancos contra o imperialismo dos brancos; quanto aos comunistas de países como Índia e Vietnã, ora lutavam contra o imperialismo (pacto URSS-Alemanha), ora tinham que defender o comunismo em detrimento da independência de seu povo, estratégia que se mostrou bastante impopular. Já um grupo de judeus na Palestina foi capaz de negociar a libertação dos britânicos com os alemães. Tais questões não demonstram uma simpatia pelo fascismo, e sim uma tática política. Com efeito, a maioria dos movimentos de libertação pendia para a esquerda internacional.
VIII
A atração que o fascismo exerceu não ultrapassou seus limites originais à guerra. O que realmente mudou foi a suscetibilidade ao socialismo na qual grande parte da Europa se encontrava após a guerra. No entanto, não tardou muito para que a política voltasse a se desenrolar como antes: o projeto de união não havia sido feito para durar. Apesar de que quase todos agora se voltassem a uma economia administrada pelo Estado, capitalismo e comunismo estavam preparados para se enfrentar novamente.
Assinar:
Postagens (Atom)